terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crônica de 1957



"Ela chegou embora todos tivessem perdido a esperança. Jogou-se nas pedras e nas árvores, nas casas e nas igrejas. Deu-se puramente a tudo. Posso até jurar que vi um sorriso nas rosas de meu jardim. E a alegria foi tanta que pulei a janela. O menino a quem dei uma rosa, olhou-me assustado: - o que é isso dona? Não. Decididamente aquele menino não entendia de rosas. Principalmente de rosas molhadas que sorriam. Continuei a andar... Que importa me julgasse louca, andando assim na enxurrada? A voz forte do pai voltava agora: - Sua garganta, menina, saia daí! Quatro, dez, vinte anos... Sempre essa mesma coisa de ouvir sinos na enxurrada. Ah, aquele pai... A coisa melhor do mundo era aquela enxurrada! Ora, que me ponham todos os nomes: sentimental, tola, velha... Que culpa tenho eu se os sinos são tristes e a enxurrada é infância? Hei sempre de falar das coisas que se foram... Em estrelas caídas, em rosas que eu dei... Ela chegou, embora todos houvessem perdido a esperança. As mulheres, com vozes horríveis, passaram a noite cantando preces. Eu dentro dela. Toda molhada... Antes, mais parecia o Ceará. Uma coisa nunca vista. Tudo empoeirado, as coisas, a vida. Uma secura se arrebentando em tudo. Graças a Deus, a chuva chegou. Eu sozinha... Bem.. Poderia ficar esquisito, mas seria formidável um mundo de gente grande andando na enxurrada. Sempre haveria de ficar um pedaço de pureza em cada um. Todos ouviriam os mesmos sinos. Sinos que acordariam essa porção de coisas boas que a maioria da gente gosta de esconder tanto. Vamos, meu amigo, andar na enxurrada... Ouvir sinos... Esquecer amores e apanhar rosas molhadas?"