domingo, 1 de novembro de 2009

Fragmentos

Muito tempo se passou sem que Joana tivesse notícias dele. Só uma vez soube que se casara com uma rica moça da Bahia. Naquela semana, recebeu dele um e-mail contando o prematuro fim de seu casamento. Dizia também estar com muita saudade de Joana, que nunca a esquecera, e que agora vivia à moda de lobo solitário, sem amores, sem amigos, mas com uma enorme vontade de revê-la.
Da primeira vez que Joana leu o e-mail não entendeu. Até se assustou. Depois de muitas releituras compreendeu: estava para retornar à sua vida o seu mais importante caso sentimental. Quem sabe agora ele viria sedente de companhia e de amor, passando uma esponja sobre o passado, sem querer falar ou saber, sem querer ouvir, apenas viver uma vida nova. Para Joana a ilusão nasceu com a chegada daquele e-mail. Voltou a recitar poemas, a sonhar com todos os beijos e com o verdadeiro amor que ainda não provara.
Joana passou a não mais reclamar da vida, pois a vida para ela agora era só promessa.
Correu para o armário escuro e simples, e entre seus vestidos, que não eram muitos, começou a escolher aquele que a faria mais atraente. Nenhum passou pelo teste, não eram suficientemente bonitos para aquele reencontro. E fazendo então umas contas de cabeça, calculou que vendendo isso ou aquilo, daria para comprar um vestido novo. Afinal, tudo valia a pena para enfeitar um corpo e uma alma latentes de desejo.
Combinaram de se encontrar em uma livraria-café, às sete horas, no momento dos sonetos. Joana comprou um livro de poesias de Fernando Pessoa, escreveu nele uma tímida dedicatória e o guardou dentro da bolsa. Um presente que valeria como uma declaração de amor.
Finalmente o tal esperado encontro aconteceu. Ele chegou aparentando mais velho e cansado, abraçou Joana distraidamente, sem ao menos lhe reparar a primorosa produção, e depois de soltar um prolongado suspiro desabafou todo o seu desespero. Contou estar arrasado com o término do seu casamento, que ainda amava desesperadamente a ex-esposa e o pior, que ela o havia abandonado totalmente arruinado, ou seja, sem amor, sem esperanças e sem dinheiro.
Aquela inesperada e honesta confissão, feita como e por um amigo, martelava a cabeça de Joana, num impulso que era ao mesmo tempo de solidariedade e decepção. Vontade de abraçar e vontade de ajudar – como se fosse possível ajudar – apagando-se, deixando de discernir, impedindo que as próprias lágrimas acontecessem. Como consolar e dizer belas palavras a um homem que, feito um canibal, comera seu coração junto com todas suas ilusões de amor?
No entanto, cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado. Joana escutou, embora com muita dor, passivamente até o fim, as lamentações do novo amigo. Quando o táxi partiu e a cidade começou a correr dos dois lados do vidro, ela percebeu que pouca coisa mudara, ou quase nada mudara. Lembrou-se do livro de poesias de Fernando Pessoa que ficara em sua bolsa e citou: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
É verdade – pensou - mas em matéria de amar, de amar de verdade, só Amélia e ninguém mais.


Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pelo meio...

Escrever, ler , dizer , contar
Pra que?
Quando ainda permanece no olhar
Uma palavra apenas que destaca:
Despedida
Dói tanto, até no respirar.
Foi embora com minhas páginas
Rasgou e mutilou o meu romance
Deixou-o sem final e sem começo.
E no meio da estória, só no meio...
Sem início, sem rumo, sem desfecho
- esfarelado -
Nosso triste desespero.
Maria Lúcia de Almeida

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Partidas


‘Departures’ ou ‘A Partida’ – título em português – é um filme sensível e também muito interessante por se tratar da milenar cultura japonesa em lidar com a morte. A peculiar tradição de um país que ao entrar em choques existenciais contemporâneos, leva-nos a refletir sobre uma questão que, para nós ocidentais, é por demais esmagadora: o medo da morte.
Para a maioria das pessoas, esse é um assunto empurrado para o subconsciente e negado na vida cotidiana. No entanto, o filme, com muita sutileza, nos mostra uma outra face da morte que não somente a do apego, da dor e do desespero. Enquanto o personagem Kobayashi age como guardião entre a vida e a morte, aos poucos, vai compreendendo que mesmo em tempos obscuros de pranto e de dor, a beleza pode habitar. E nos momentos que antecedem ‘a partida’, trabalha para que ninguém pense em preto, ninguém pense em luto, ninguém veja o morto como diferente, estranho ou intruso.
O morto é apenas o vivo que conclui o trabalho de viver e, com toda dignidade, é primorosamente preparado para sua nova jornada.
Uma nova jornada: é esse o sutil toque de ‘A Partida’. Assim como os filhos seguem seus caminhos quando crescem, os primeiros professores, os grandes amores e até os amigos quando escolhem rumos diferentes. O nosso grande mal é traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se a separação efetiva houvesse realmente entre vida e morte.
A vida emana da vida, o botão se transforma em flor, a criança se torna adulto...a vida não é outra coisa senão a preparação para as partidas.
E no final ficamos menos tristes, menos confusos e menos vulneráveis ao sentirmos que nada precisa morrer no instante da morte. É apenas o deixar fluir da natureza, certos de que em meio às cinzas está a semente do novo que vai nascer.
Maria Lucia de Almeida

sábado, 3 de outubro de 2009

No Invisível


Como nuvens ambulantes
Caminhamos pelo mundo
Luzes brilhantes
Outras
Melancólicas sombras
Mantos densos e
Mantos leves
Mapear os caminhos
Seria inútil...
A essência e o amor
Assim como a vida
E assim como a morte
Começam e terminam
Com a mesma percepção:
Invisível.

Maria Lucia

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Vive l'amour"


‘Vive l’amour’ é um filme especial e também uma obra prima visual. Quase desprovido de diálogos e misturando contrato de sagacidade, estranho erotismo e profunda tristeza, é um filme realista e, ao mesmo tempo, poético e sensível. Um filme para poucos, pois está muito além do mero entretenimento e acima da superficialidade do cotidiano jornalístico.
No enredo, Hsiao é um tímido vendedor de urnas funerárias, possui tendências suicidas e, como forma de redenção, busca coragem para por fim à própria vida. Mei-mei é uma corretora de imóveis que encontra no sexo uma forma de compensar seu intenso sentimento de abandono e infelicidade. Ah-rong vende roupas usadas e se ‘vira’, pelas ruas, para sobreviver. Três jovens solitários e fechados em seus próprios desesperos que acabam se encontrando em um apartamento vazio da cidade em busca da satisfação nos atos compartilhados. Vidas tristes e trocadas, caminhos densos, onde o viver ‘cada um por si’ e a incomunicabilidade são condições do mundo atual e a principal causa do sentimento de abandono e exclusão.
É o cinema contemporâneo que vem tratando da solidão urbana, da falta de amor e de comunicação entre as pessoas. De um mundo onde o materialismo e a alienação urbana ganham espaço e imperam sobre a civilidade e a razão da grande parte das sociedades. Onde o capitalismo com seu efeito globalizar produz uma realidade fria que não mais reflete o interior das pessoas, mas apenas o exterior. Vida de desencontros, vida de excluídos, sofrimento sem nenhum atenuante.
Geralmente , ouvimos, vemos e sentimos conforme nossas inclinações e evitamos, até mesmo excluindo, pessoas com a sensibilidade para enxergar determinadas facetas de nossa realidade. Uma dessas pessoas é o diretor Tsai Ming-Liang que através de seu excepcional “Vive l’amour” veio nos confirmar que muitas vezes mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos.
Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Divino espetáculo


Por que será que precisamos de tantos significados, explicações, rótulos, conclusões e detalhamentos? Qual a grande necessidade de estarmos sempre nos explicando, batizando todas as coisas, concluindo se é assim ou assado. Criando atalhos e justificativas, buscando lógica e razão, queremos segurar o mundo através de nossas cabeças, acumulando informações e conceitos. Entender, em certo sentido, é também fragmentar, dividir, analisar. Em nossa ansiedade por entendimento acabamos por reduzir a vida às dimensões já conhecidas, para em seguida cairmos no tédio e no desinteresse. Quando crianças, o mundo é sempre mágico e somos a pura expressividade. À medida que amadurecemos e aprendemos que a vida é assunto muito sério, esquecemos de brincar, de sentir e de apenas emocionarmos.
Tudo isso me ocorre a propósito de certa viagem de férias que fiz a um lugar paradisíaco chamado Dunas de Itaunas. Um pequeno vilarejo que fica ao norte do Espírito Santo e que nos anos 50, devido ao lençol arenoso soprado pelos ventos nordeste, foi totalmente soterrado. A vila, como que brotando das cinzas, renasceu nos anos 70 ao lado do rio Itaunas e do outro lado, próximo ao mar de um azul profundo, edificaram maravilhosas dunas de até 30 m de altura de areia finíssima e dourada onde o sol celebra sua existência espalhando seus lindos raios.
Do alto das dunas é possível ver a praia de um lado e o rio de outro e o lugar atrai turistas de todos os cantos do mundo que, ao chegarem em Itaúnas, ficam fascinados pela manifestação do sol na hora do crepúsculo. Por alguns minutos o céu é banhado de luz multicolorida e alí, por sobre as dunas, ficamos com a alma embriagada, encobertos e encantados por um imenso arco-íris. A vila refletindo as cores do céu dá a impressão do paraíso.
Foi durante esse belíssimo espetáculo, raro momento em que me permiti ir além dos limites do conhecido em busca dos mistérios do Sagrado, acreditando que nada existe que não tenha forma antes inventada pela natureza, que escuto, por acaso, a expressão de um pequeno coadjuvante da mãe-natureza. Uma criança no colo de sua mãe que, naquele momento, tornou-se símbolo do reencontro com a minha própria emoção:
- Que beleza, mamãe! Quem pintou?
Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Numa só janela

Se tudo acontece
Numa só janela
Abra a cortina
Deixe o sol entrar
Mas se faz
Vento com chuva
Não feche a janela
Nem se tranque
Que o cheiro da chuva
Traga lembranças
Que o vento
Sopre esperanças
Que bem nos disse Cecília:
O bom da vida
É o reinventar.


Maria Lucia