quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TERNURA



Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora meu amor seja uma velha canção aos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o suave perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça de teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um  sossego, uma unção , um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos  cálidas da noite
Encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

No aqui e agora

Sigo o caminhar dos dias
Peregrina do aqui e agora
Do tempo que passei
Na solidão te amando
Só sobraram versos soltos
Esquecidos no papel.
Versos de rimas pobres
Lembranças de um mundo vazio
Versos que nem mesmo valem
A um grande amor ser fiel.

Maria Lúcia de Almeida

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Efigênia


Pessoa franzina, miúda, mas de um jeito precioso para sua meia-idade. Sangue quente correndo nas veias, de apetite de vida que não esmorece. Delicada criatura de unhas e mãos sempre tratadas, cabelo arrumado, rostinho maquiado e brincos reluzentes nas orelhas. Feliz, sorridente e animada, FiFi sempre pronta para amar e ser amada.
De dia, como faxineira, ela vinha todos os dias limpar as nossas vidas. Pequeno anjo que adentrava pelas salas de trabalho revelando a vida e ascendendo o sol no coração da gente. Sexta-feira, dia especial, a bonequinha enfeitada e de saia rodada, acordava em nós o desejo de aproveitar a vida a cada instante. Mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, procurava o prazer na dança. – Hoje eu me acabo no forró – dizia ela, depois de uma gostosa gargalhada.
A singularidade é que o coraçãozinho da FiFi envelheceu com graça. Parecia que a cada dia que passava ia respirando menos ar e com dificuldade.
Infelizmente ela faleceu não podendo o seu frágil sopro de vida vencer o esforço de uma batalha contra a pneumonia. Naquela hora humilde e agoniada, dentro da gente a ternura se desvanece. Fica o desgosto, às vezes a cólera, outra vez o desespero. E, finalmente, mergulhados na mais profunda tristeza, nada podemos fazer a não ser chorar um pouco.
Outro dia e o trabalho se reinicia, a vida retoma seu rumo. Voltamos a pensar que a morte é coisa longíngua, feita apenas para os outros...
Contudo, em tempo algum poderemos ser os mesmos porque dos nossos corações jamais se afastará a lembrança dos dias felizes que convivemos com a nossa querida FIFI. Nem a lembrança e nem a vibração de um riso manso, zombeteiro e alegre daquela linda alma de criança.

Maria Lúcia de Almeida

sábado, 25 de junho de 2011

Feitiço do tempo



De tudo
O que mais quero
São breves momentos
Mesmo sem lua
Na madrugada fria
Pela ronda dos bares
Sem quê e nem por quê
Se por ventura houvesse
Esperança por fim
De encontrar você...
- por breves momentos –
Como num passe de mágica
Faria o tempo voltar
Que louca feiticeira eu seria.

Maria Lucia de Almeida

sábado, 5 de março de 2011

Nowhere ( lugar nenhum)




Perceber
Que não mais existe
Um ser perdido
Em outras paragens
Ali ficou...
No escondido
Emoção
De um ser livre
E viver pra ser feliz
Perdeu o real motivo
Pois ser escravo
De pés atados
Ser contido, ser contrário
- definitivamente -
Não faz o menor sentido.

Maria Lucia de Almeida

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ausência

Sinto sua falta em toda minha presença:
No sorriso espontâneo
Na alegria furtiva
No desejo reprimido
-  que por um descuido -
Ainda se manifesta.

Na expectativa de um encontro
Na ingenuidade de um sonho
No perfume das tardes de primavera
E nas mornas noites de luar.

Nos eternos poemas quando declamados
Na suavidade de uma música romântica
Nos rápidos beijos roubados
Nas deliciosas confidências à mesa de um bar.

Mas quando me procuro
E não mais me sinto
E toda presença se desfaz

Tudo em mim e de mim
É só falta...
Em toda a sua ausência.


Maria Lúcia de Almeida

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Anseio

Leio
Releio
Recorto
Resumo
Receio

Sonho
Reluto
Tento
Mas só consigo transformar o que sinto
Em nada mais que pensamento...

Maria Lúcia de Almeida