Há dias em que uma fotografia nos encontra antes mesmo que a procuremos.
Ela escorrega de um livro antigo, aparece no fundo de uma gaveta, cai de dentro de uma caixa esquecida. E basta um olhar para que a casa se encha de vozes que já não moram nela.
É curioso... O tempo nunca para. Segue adiante sem pedir licença. No entanto, a fotografia parece conhecer um jeito delicado de caminhar ao lado dele. Não o desafia, não o prende, apenas recolhe um instante e o guarda como quem protege uma chama do vento.
Talvez seja por isso que uma fotografia nunca seja apenas uma imagem. Ela é um pedaço da vida que se recusou a partir por inteiro.
Nela continuam respirando os afetos. Um abraço permanece abraçando. Um sorriso continua sorrindo. Um olhar ainda espera por quem o contempla tantos anos depois.
E nós, diante desse pequeno milagre de papel, descobrimos que a saudade também pode ser luminosa.
Porque fotografar nunca foi deter o tempo. Foi aprender que certos instantes merecem permanecer conosco, não para impedir que a vida siga, mas para lembrar que ela passou por nós com tanta beleza que seria impossível esquecê-la.
Maria Lucia de Almeida
