terça-feira, 24 de março de 2026

Uma volta ao passado.



Através das lembranças, volto ao passado
como quem abre uma janela antiga e deixa o vento tocar o rosto. Flagrante de fuga ou de loucura, entrego-me ao que fui sem pedir licença ao tempo.
Recolho vestígios: uma fita desbotada, um gesto interrompido, um sonho que não amanheceu.
Entrego-me sem defesa ao que restou de mim nos cantos esquecidos do tempo. Há  um silêncio antigo me chamando pelo nome, um eco de risos distantes guardados em gavetas, segredos costurados em silêncio, sonhos ainda perfumados de inocência. 
Visto- me de pureza e de felicidade,  como quem veste um vestido leve que o tempo não desfez.  Levo comigo o perfume de alfazema, leve, persistente, como a memória  que não se apaga.
E, então,  volto àquele quarto de menina, onde o mundo cabia em sonhos, a vida era apenas promessa e o coração não conhecia ausências. 
Ali, permaneço  por inteira: intocada pela pressa dos anos, como a infância que nunca volta, mas que  também  nunca parte. 
O espelho me olha de longe, como se eu ali já  não pertencesse,  como uma felicidade antiga, quase irreconhecível; uma volta ao passado, não como quem chega, mas como quem se perde em caminhos já  desfeitos.
Maria Lucia de Almeida 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A Partida

Naquele tempo o mundo parecia suspenso entre o que partia e o que ainda insistia em ficar. 
Não se sabia ao certo se era saudade ou ternura; talvez uma mistura silenciosa das duas, dessas que doem devagar, como a luz da tarde se despedindo  sem pressa. Havia uma dor mansa, quase bonita que se espalhava pelos cantos do pensamento, como se cada lembrança carregasse um pouco de você. 
Naquele momento , o tempo não pediu licença,  ele simplesmente passou. Levou consigo hisitaçoes,  as perguntas, as pequenas e as grandes desculpas que ainda tentavam sobreviver.
Então  o tempo passou - não  como quem anda, mas como quem leva.  E levou as perguntas, as pausas, as derradeiras desculpas, como folhas soltas na corrente de um adeus inevitável. 
E, quando tudo enfim se aquietou, restou apenas a certeza tardia que algumas coisas não se resolvem, apenas nos atravessam e seguem,  mesmo quando não estamos prontos para deixá-las ir.
Ficou apenas isso : uma ausência  que ainda respira, um instante que termina, e o peso delicado de saber que algumas histórias não  se encerram - apenas continuam, silenciosas , dentro da gente, em um eterno sentir.

Maria Lucia de Almeida 



quarta-feira, 4 de março de 2026

Quando o dia não clareia

Há  dias em que o mundo pesa. O corpo acorda, mas a alma parece querer dormir um pouco mais. O que antes era rotina agora custa tanto: levantar, escovar os dentes, olhar o céu. Tudo parece distante,  nublado,  como se o tempo passasse e a gente ficasse parado dentro dele. 
Ela sabe disso. Ela sente no peito essa sombra que não se explica, que não se resolve com palavras otimistas e nem com promessas de que ' vai passar'. Porque quem está dentro da tristeza não  quer consolo forçado, só  um lugar seguro para descansar. 
Mas há algo sutil  que resiste: o toque morno  de uma xícara  de café,  um verso bonito que chega de surpresa, o cheiro das manhãs.  São  pequenos sinais de que ainda existe beleza - mesmo quando não se vê. 
Talvez viver,  nesses  dias, seja apenas isso: ficar. Não  se cobrar alegria. Apenas estar. E confiar,  mesmo sem forças,  que a dor também  tem seus ciclos, e que dentro do silêncio  germina alguma transformação.

Maria Lucia de Almeida.


domingo, 27 de julho de 2025

O tempo e o Vento

 " O vento que leva o que amamos é o mesmo vento que traz coisas que aprendemos a amar."


O Tempo e o Vento

Há dias em que o vento sopra como quem sussurra memórias. Ele vem leve, quase tímido, brincando com as cortinas, espalhando folhas na calçada, como se quisesse nos lembrar que tudo passa, até o instante mais eterno. 
O vento é, talvez, o mensageiro mais fiel do tempo. Não o tempo do relógio, com seus ponteiros apressados, mas o outro, aquele que sentimos na pele, nos olhos, no silêncio que cresce nas pausas entre as palavras. 
Hoje, por exemplo, o vento passou por mim com cheiro de infância. Trouxe o som de risadas correndo soltas no quintal da casa, o gosto do doce de leite ainda quente, o grito da mãe chamando pra dentro quando o céu começava a escurecer. E, por um instante, eu voltei sem sair do lugar. 
É isso que o tempo faz quando caminha de mãos dadas com o vento: dobra as esquinas da memória e nos convida a sentar no banco das lembranças. Mas o vento também carrega o tempo que ainda não chegou. Sopra no rosto como promessa. Leva embora o que pesa, espalha o que já não serve, como quem varre a alma. E há beleza nisso, nessa faxina invisível que ele faz. 
O tempo e o vento são irmãos antigos. Um molda, o outro move. O tempo constrói histórias e o vento as espalha. Juntos, eles nos fazem entender que a vida não é feita para ser controlada, mas sentida, assim como a brisa que passa e nos arrepia sem sabermos exatamente por quê. E quando nos damos conta, já estamos vivendo outro momento. Outro sopro. Outro tempo.

Maria Lucia de Almeida

quinta-feira, 24 de julho de 2025

O Tempo das Margaridas




Chega um momento na vida em que o tempo desacelera. Não porque os dias se tornem menos intensos, mas porque a gente aprende a vivê-los de outro jeito ,como quem caminha descalço num campo de margaridas, sem pressa, só por prazer. Os últimos anos da vida não são um fim, são um lugar. Um lugar de pouso. Um banco sob a sombra de uma árvore antiga, onde finalmente se pode ver tudo com mais clareza: os erros já não doem tanto, os acertos brilham mais. E o que não se viveu, ah… vira vento, vira história que se conta rindo, com um certo ar de travessura.  É estranho como o tempo, que tanto nos apressou, agora parece pedir licença. Ele bate de leve à porta: “Posso entrar, com calma" . E a gente deixa; com xícara de chá, com silêncio, com olhos que demoram mais nas coisas simples:  o voo de um passarinho, o cheiro do café, a lembrança de um nome esquecido e reencontrado no coração. Não há mais o que provar. Só o que partilhar. E é nesse tempo que o amor, mesmo quando quieto, grita mais alto. Porque ele fica nas mãos dadas, nas fotos amareladas, nas cartas guardadas em caixas. Ele fica no jeito de cuidar; mesmo que agora quem cuida seja o outro. Viver os últimos anos é, talvez, viver de verdade. Como quem sabe que o espetáculo já foi lindo e agora só assiste, sorrindo, aos aplausos da alma.

Maria Lucia de Almeida

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Os últimos anos


Há uma delicadeza serena em viver os últimos anos. Como o entardecer que se estende dourado, a vida se torna mais silêncio do que pressa, mais presença do que planos.

Cada manhã é um presente embrulhado em luz,cada lembrança, um jardim secreto onde se pode repousar.

Já não é preciso correr, nem provar, nem vencer.  Agora é tempo de sentir:  o vento, a chuva, o riso, o afeto.

Viver os últimos anos é arte sutil: é saber despedir-se devagar, com gratidão nos olhos e o coração aberto feito céu de outono.

Porque mesmo no fim, há começo: no gesto simples, no olhar sereno, no amor que permanece.

Maria Lucia de Almeida.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Instante flash

Hoje eu acordei com a alma leve, tão leve que acho que tropecei em mim mesma de tão solta. Não aconteceu nada , e talvez esse seja justamente o milagre: nada aconteceu e, ainda assim, eu estou feliz. Sabe aquele tipo de felicidade que não tem motivo nem desculpa? Pois é, tô nessa. Felicidade gratuita, sem CPF na nota. Não ganhei na loteria , ninguém me mandou flores, e o tempo lá fora está indeciso, como eu na frente da geladeira. E mesmo assim, olha eu aqui, rindo sozinha porque uma formiga se perdeu na pia e deu meia-volta como se dissesse: "Opa, desculpa, endereço errado."

Tem dias em que meu coração resolve fazer festa sem aviso prévio. Ele liga a música, estoura confete invisível e dança,  mesmo que eu esteja só passando café. E quem sou eu pra reclanar? A verdade é que tem uma coisa deliciosa em não precisar de razões pra sorrir. Como se o universo, por um segundo, cochichasse: “Vai lá, pega esse instante de graça e aproveita. Ninguém tá olhando.” E eu aproveito. Porque ser feliz por nada é, no fundo, ser feliz por tudo que a gente esquece de notar: a luz atravessando a cortina, o vento rosçando na palmeira, o roncar da Nina ao meu lado, a sensação boa de estar em paz com o próprio caos.

Então hoje, se me perguntarem o porquê desse meu instante flash,  eu vou responder com a maior sinceridade do mundo: não sei. Só sei que tá bom demais ser feliz assim ,de graça, à toa, e sem a menor vontade .

Maria Lucia de Almeida