Há filmes que não terminam quando acabam. Ficam.
Como uma tarde fria que insiste na pele, mesmo depois que o sol já foi embora. Ou como uma lembrança que não encontra lugar, e por isso permanece.
"Não Me Abandone Jamais" é assim.
Não é a história que se impõe. É o que fica entre ela. Os intervalos. Os olhares que demoram um segundo a mais. 'O quase.'
Há uma aceitação que não chega a ser calma, mas também não grita. Apenas existe - discreta - como um destino que se aprende a tocar sem nunca compreender.
Eles vivem como quem já sabe. E, ainda assim, vivem. Amam como quem segura algo muito delicado, sabendo, desde sempre, que vai escapar. Pequenas coisas tentam permanecer: uma fita, um desenho, uma espera. Como se fosse possível guardar o que já nasce partindo.
E talvez seja isso que mais doa: não a perda, mas a consciência dela antes do tempo.
Cada instante carrega, dobrado em si, o seu próprio fim. Como se o tempo não passasse - apenas se despedisse.
Tudo é contido. Quase sussurrado. E é justamente por isso que atravessa.
No fim, não é a tragédia que fica. É uma ternura difícil de explicar, dessas que a gente não mostra, mas guarda.
É exatamente isso: uma dor que não explode, mas permanece, e depois vai se acomodando dentro da gente.
"Não Me Abandone Jamais" parece quase ensinar esse movimento: não o de superar, mas o de aprender a carregar. Como se a intensidade, com o tempo, não diminuísse o afeto - apenas encontrasse um lugar silencioso para existir.
E talvez por isso, o filme seja tão bonito. O que fica é uma espécie de tristeza serena...rara.
Maria Lucia de Almeida.