quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dramática, eu !?




Dizem que sou dramática, e talvez  seja verdade.
Há  em mim uma certa inclinação para sentir  demais, para alongar os instantes, para dar às pequenas  coisas uma dimensão  quase teatral.
Mas o que eu descrevo, não  é  aquele drama vazio, 
de exagero  por hábito. É  outra coisa, é percepção ampliada. É olhar para o cotidiano e enxergar camadas que muita gente não percebe. 
Isso é matéria-prima de poesia. 
Um suspiro não é apenas um suspiro, é um acontecimento. Um silêncio não é vazio, é carregado de significados que ninguém pediu, mas que eu inevitavelmente encontro.
Meu filho quando diz que sou dramática,  diz com a leveza de quem observa de fora, talvez sem saber que o drama não  é  exagero gratuito,  é uma força  de estar no mundo com as portas abertas. Porque quem sente pouco passa ileso,  mas também  passa vazio. Eu não.  Eu atravesso.
Gosto dos dramas, sim. Gosto dos pesos das palavras, do gesto que se prolonga, da emoção que não  se esconde. Há  beleza nisso. Uma beleza profundamente humana. A arte afinal, não nasce da indiferença. Nasce desse transbordamento que, as vezes incomoda, às vezes diverte,  mas sempre revela. 
Sou dramática,  que seja. Vivo com intensidade,  não economizo alma. E, no final das contas, talvez o mundo precise mesmo de alguns exageros,  porque são eles que nos lembram que sentir vale a pena.
Então,  penso que a melhor definição seja essa: você não é  "dramática", você  é  expressiva com intensidade. E, sim...isso é  profundamente poético. 

Maria Lucia de Almeida

A Forma da Água




Sempre fui fã do diretor de cinema Guilhermo Del Toro e de seus filmes que são  um mergulho no mundo dos arquétipos e da simbologia, em ambientes realistas e surrealistas ao mesmo tempo. Entre seus melhores trabalhos estão: " O Labirinto do Fauno", " A Espinha do Diabo", "A Colina Escarlate ", " Mutação " e "A Forma da Água".
Esse último,  "A Forma da Água", é  um filme ousado que discorre sobre preconceito e intolerância em um universo  mágico, cheio de alegrias para iluminar aqueles que não  se encaixam na sociedade.
Na verdade, o filme é  quase uma fábula do bem contra o mal, dos valores éticos,  da pureza e da nobreza, da dualidade de conflitos em meio a um mundo opressor. Uma história  que encanta e faz sonhar, passada nos anos 1960, com um toque de romantismo dos velhos filmes, algumas cenas engraçadas, outras picantes, e um elenco de primeira. 
Sally Hawkins na personagem de Elisa é  uma mulher que não  fala, mas ao mesmo tempo conversa com as pequenas coisas, como se nelas estivesse guardado o sentido do mundo. Há  algo no silêncio  de Elisa que fala mais alto que qualquer palavra, um silêncio que escorre pelas paredes úmidas de um laboratório, como a própria água,  paciente  e inevitável. 
Michel Shannon,  o chefe de segurança Richard, faz um oficial linha dura no período em que a guerra fria estava no auge. Na verdade, um 'cidadão  do bem' que nao presta para nada. Um homem que confunde controle com virtude.
Richard Jenkins, o Giles,  faz o vizinho e companheiro de solidão  de Elisa, um senhor gay que nunca pode mostrar seus desejos. Entre ele e Elisa, e ao redor deles, orbitam afetos silenciosos: a lealdade, a amizade, a solidão compartilhada, como ecos de um mesmo coração cansado.
Já  a criatura, tão  distante do humano, carrega em si uma ternura ancestral, quase sagrada,  como se  tivesse atravessado eras apenas para lembrar que sentir ainda é  possível.  
Há, no filme, algo ainda mais profundo que o romance: a ideia  de que amar é  reconhecer o outro em sua estranheza e, ainda assim, escolher ficar. Como um conto antigo, sussurrado ao pé  do ouvido, " A Forma da Água " nos lembra que a beleza nao está na forma , mas no encontro. Que aquilo que é  visto como monstruoso, pode, na    verdade, ser o unico lugar onde a pureza sobreviveu intacta.  A deliciosa trilha sonora,  com seu caráter nostálgico, também  contribuiu para o lado mais doce,  pois além  de tudo, o filme é uma bela história  de amor,  de romance impossível  entre a Bela e a Fera e da paixão  mais sincera de 'quem ama  o feio bonito lhe parece'. O que o diretor   Guilhermo Del Toro faz é  misturar a magia dos elementos fantásticos com a beleza da conexão  entre as pessoas.

Maria Lucia de Almeida. 

Blade Runner

 



Vocês me perguntam porque gosto tanto desse filme…
Talvez porque, em Blade Runner, não exista apenas uma história - existe uma espécie de silêncio que fala comigo. Um silêncio molhado de chuva, iluminado por néons cansados, onde tudo parece à beira de desaparecer… inclusive o que chamamos de humano. 
Gosto porque, sob o olhar de Ridley Scott, o futuro não é grandioso, é melancólico. É um lugar onde as perguntas doem mais do que as respostas. Onde viver não basta… é preciso sentir que se vive.
E há algo em mim que se reconhece nesse cansaço.
Quando Harrison Ford caminha por aquela cidade, perdido entre dever e dúvida, sinto que todos nós também caminhamos assim: tentando entender até onde vai nossa humanidade, e onde começa aquilo que apenas imita o sentir. Porque, no fundo, às vezes também nos sentimos programados… repetindo dias, emoções, ausências.
Mas é em Rachael, vivida por Sean Young, que algo em mim se desfaz. Ela é quase. Quase humana, quase inteira, quase pertencente. E talvez seja esse “quase” que mais me comove, porque também somos feitos disso: de incompletudes, de memórias que nos inventam, de desejos que não sabemos nomear.
E então a música de Vangelis chega… como se tocasse não os ouvidos, mas alguma parte esquecida da alma. E tudo se amplia. Tudo ganha um peso bonito e triste, como se cada cena carregasse a delicadeza de algo que está prestes a acabar.
Gosto desse filme porque ele não me dá conforto. Ele me inquieta. Ele me olha de volta.
E, talvez, porque em meio a máquinas que desejam mais vida, eu me lembre de que também estou aqui, replicando, tentando sentir mais fundo, existir com mais verdade, e encontrar, mesmo nas ruínas, algum sentido que ainda pulse.
Talvez eu goste tanto porque, no fim…
Blade Runner não fala sobre o futuro. Fala sobre nós.

Maria Lucia de Almeida


terça-feira, 24 de março de 2026

Uma volta ao passado.



Através das lembranças, volto ao passado
como quem abre uma janela antiga e deixa o vento tocar o rosto. Flagrante de fuga ou de loucura, entrego-me ao que fui sem pedir licença ao tempo.
Recolho vestígios: uma fita desbotada, um gesto interrompido, um sonho que não amanheceu.
Entrego-me sem defesa ao que restou de mim nos cantos esquecidos do tempo. Há  um silêncio antigo me chamando pelo nome, um eco de risos distantes guardados em gavetas, segredos costurados em silêncio, sonhos ainda perfumados de inocência. 
Visto- me de pureza e de felicidade,  como quem veste um vestido leve que o tempo não desfez.  Levo comigo o perfume de alfazema, leve, persistente, como a memória  que não se apaga.
E, então,  volto àquele quarto de menina, onde o mundo cabia em sonhos, a vida era apenas promessa e o coração não conhecia ausências. 
Ali, permaneço  por inteira: intocada pela pressa dos anos, como a infância que nunca volta, mas que  também  nunca parte. 
O espelho me olha de longe, como se eu ali já  não pertencesse,  como uma felicidade antiga, quase irreconhecível; uma volta ao passado, não como quem chega, mas como quem se perde em caminhos já  desfeitos.
Maria Lucia de Almeida 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A Partida

Naquele tempo o mundo parecia suspenso entre o que partia e o que ainda insistia em ficar. 
Não se sabia ao certo se era saudade ou ternura; talvez uma mistura silenciosa das duas, dessas que doem devagar, como a luz da tarde se despedindo  sem pressa. Havia uma dor mansa, quase bonita que se espalhava pelos cantos do pensamento, como se cada lembrança carregasse um pouco de você. 
Naquele momento , o tempo não pediu licença,  ele simplesmente passou. Levou consigo hisitaçoes,  as perguntas, as pequenas e as grandes desculpas que ainda tentavam sobreviver.
Então  o tempo passou - não  como quem anda, mas como quem leva.  E levou as perguntas, as pausas, as derradeiras desculpas, como folhas soltas na corrente de um adeus inevitável. 
E, quando tudo enfim se aquietou, restou apenas a certeza tardia que algumas coisas não se resolvem, apenas nos atravessam e seguem,  mesmo quando não estamos prontos para deixá-las ir.
Ficou apenas isso : uma ausência  que ainda respira, um instante que termina, e o peso delicado de saber que algumas histórias não  se encerram - apenas continuam, silenciosas , dentro da gente, em um eterno sentir.

Maria Lucia de Almeida 



quarta-feira, 4 de março de 2026

Quando o dia não clareia

Há  dias em que o mundo pesa. O corpo acorda, mas a alma parece querer dormir um pouco mais. O que antes era rotina agora custa tanto: levantar, escovar os dentes, olhar o céu. Tudo parece distante,  nublado,  como se o tempo passasse e a gente ficasse parado dentro dele. 
Ela sabe disso. Ela sente no peito essa sombra que não se explica, que não se resolve com palavras otimistas e nem com promessas de que ' vai passar'. Porque quem está dentro da tristeza não  quer consolo forçado, só  um lugar seguro para descansar. 
Mas há algo sutil  que resiste: o toque morno  de uma xícara  de café,  um verso bonito que chega de surpresa, o cheiro das manhãs.  São  pequenos sinais de que ainda existe beleza - mesmo quando não se vê. 
Talvez viver,  nesses  dias, seja apenas isso: ficar. Não  se cobrar alegria. Apenas estar. E confiar,  mesmo sem forças,  que a dor também  tem seus ciclos, e que dentro do silêncio  germina alguma transformação.

Maria Lucia de Almeida.


domingo, 27 de julho de 2025

O tempo e o Vento

 " O vento que leva o que amamos é o mesmo vento que traz coisas que aprendemos a amar."


O Tempo e o Vento

Há dias em que o vento sopra como quem sussurra memórias. Ele vem leve, quase tímido, brincando com as cortinas, espalhando folhas na calçada, como se quisesse nos lembrar que tudo passa, até o instante mais eterno. 
O vento é, talvez, o mensageiro mais fiel do tempo. Não o tempo do relógio, com seus ponteiros apressados, mas o outro, aquele que sentimos na pele, nos olhos, no silêncio que cresce nas pausas entre as palavras. 
Hoje, por exemplo, o vento passou por mim com cheiro de infância. Trouxe o som de risadas correndo soltas no quintal da casa, o gosto do doce de leite ainda quente, o grito da mãe chamando pra dentro quando o céu começava a escurecer. E, por um instante, eu voltei sem sair do lugar. 
É isso que o tempo faz quando caminha de mãos dadas com o vento: dobra as esquinas da memória e nos convida a sentar no banco das lembranças. Mas o vento também carrega o tempo que ainda não chegou. Sopra no rosto como promessa. Leva embora o que pesa, espalha o que já não serve, como quem varre a alma. E há beleza nisso, nessa faxina invisível que ele faz. 
O tempo e o vento são irmãos antigos. Um molda, o outro move. O tempo constrói histórias e o vento as espalha. Juntos, eles nos fazem entender que a vida não é feita para ser controlada, mas sentida, assim como a brisa que passa e nos arrepia sem sabermos exatamente por quê. E quando nos damos conta, já estamos vivendo outro momento. Outro sopro. Outro tempo.

Maria Lucia de Almeida