Sempre vivi rodeada de livros.
Minha mãe lia muito. A lembrança mais antiga que guardo dela é sentada em sua poltrona preferida, um livro aberto nas mãos e um silêncio que, hoje percebo, também fazia parte da leitura.
Anos mais tarde, meu irmão mais velho — quinze anos mais velho do que eu — montou uma pequena biblioteca em casa.
Era um verdadeiro tesouro. Todas as tardes, depois que voltava do colégio, eu me enfiava ali como uma ratinha de biblioteca, farejando histórias. Comecei por Mark Twain, Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Hermann Hesse, Salinger, Albert Camus... E nunca mais parei.
Mas não é exatamente sobre livros que quer falar. Ou talvez seja. Porque a minha lembrança mais remota de um encontro com o amor nasceu justamente entre as páginas de um livro.
Eu tinha apenas seis anos. Minha mãe costumava trocar livros com uma vizinha, e enquanto as duas conversavam, eu passava a tarde brincando com os filhos gêmeos dela. Chamavam-se Bito e Fuca.
Até hoje, confesso, nunca soube seus verdadeiros nomes. Para mim, eles sempre foram apenas Bito e Fuca.
Eu adorava aquelas visitas. A casa deles era toda branca, de dois andares, e havia um jardim na frente que, aos meus olhos de criança, parecia uma floresta encantada. Ali cabiam pique-esconde, bola, aventuras imaginárias... e, sem que eu soubesse, também cabia o primeiro amor.
Um dia, antes de minha mãe devolver um dos livros à amiga, desenhei um enorme coração vermelho atravessado por uma flecha. Bem no meio escrevi, com toda a convicção que só uma menina de seis anos consegue ter:
"ML ❤️ Bito "
Sem que minha mãe percebesse, escondi o desenho entre as páginas do livro. Achei uma ótima ideia. Nem me preocupei em guardar o título. Afinal, na minha cabeça, os grandes gestos não precisavam de planejamento.
Passaram-se alguns dias. Quando chegamos novamente à casa da vizinha, antes mesmo de entrarmos, vi o Bito no jardim. Ele segurava meu desenho nas mãos. Estava vermelho, indignado, esbravejando tudo o que sabia — e também o que não sabia. Enquanto isso, a mãe e o irmão riam tanto que mal conseguiam parar em pé.
Minha mãe, coitada, sem entender absolutamente nada. Eu apenas soltei sua mão e saí correndo de volta para casa. O coração parecia querer fugir do peito. O rosto queimava de vergonha. E as lágrimas brotavam antes mesmo que eu pudesse entender por que doíam tanto.
Nunca mais acompanhei minha mãe naquelas visitas.
Pouco tempo depois, a família mudou de cidade. A casa branca permaneceu fechada durante muito tempo. E, sempre que eu passava diante dela, acabava me lembrando da menina atrevida que resolveu declarar seu amor escondendo um coração dentro de um livro.
Hoje penso que foi uma bela estreia.
Meu primeiro amor não deu certo. Mas nasceu exatamente onde tantas outras paixões nasceriam depois: entre livros.
Talvez tenha sido por isso que, desde então, nunca deixei de acreditar que existe uma forma muito bonita de amar. Aquela em que duas pessoas trocam livros, histórias, silêncios... e, entre uma página e outra, deixam também uma dedicatória escrita à mão, apaixonada.
Afinal, alguns amores passam. Os livros ficam.
E, às vezes, é justamente por causa deles que a vida continua nos contando as suas histórias.
Maria Lúcia de Almeida