A vida, esse espetáculo sem roteiro fixo, exige de nós certa dose de insanidade para sobreviver. É preciso ser muito louco para acordar todos os dias e enfrentar um mundo onde, em pleno século XXI, homens fazem guerras entre si; mulheres e crianças morrem em conflitos ou de fome; pessoas ainda são submetidas a condições degradantes de trabalho; jovens não honram pai e mãe; e a maldade, tantas vezes, parece prevalecer sobre a bondade.
No caos cotidiano, a loucura tornou-se nossa mais fiel companheira. E tão loucos somos que seguimos acreditando, desejando e tentando — apesar de tudo.
Lembrei-me agora do que disse Clarice Lispector em um de seus livros: “Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive é o próprio ‘apesar de’ que nos empurra para a frente”.
E é nessa loucura que descobrimos quem somos. Loucos porque ainda amamos, mesmo com o coração marcado por tantas partidas. Loucos porque continuamos sonhando, apesar do peso das decepções que carregamos nos ombros. Loucos porque compreendemos que a felicidade não é um destino a ser alcançado, mas um instante fugaz que, por breve que seja, nos pertence.
Sejamos felizes, então. Mesmo que a felicidade venha em doses pequenas, como o riso compartilhado com quem compreende nossa loucura sem julgamentos. Sejamos felizes nas imperfeições, nas pausas, nos tropeços. Sejamos felizes porque estamos vivos, e isso, por si só, já é um ato de coragem em um mundo que tantas vezes nos quer conformados.
Que cada gargalhada seja uma forma de resistência; cada abraço, um refúgio; cada suspiro, um lembrete de que, mesmo sendo loucos, ainda somos capazes de encontrar beleza no caminho.
E, se a vida é uma peça improvisada, que sejamos protagonistas das nossas próprias histórias, mesmo quando tudo parecer ruir à nossa volta. Porque, no fundo, o equilíbrio perfeito não passa de uma ilusão. O que nos mantém de pé é essa dança descompassada entre o sonho e a realidade, essa busca incessante pelo brilho que habita o encontro entre a loucura e a poesia.
Maria Lúcia de Almeida