segunda-feira, 25 de maio de 2026

Não Me Abandone Jamais





Há filmes que não terminam quando acabam. Ficam.
Como uma tarde fria que insiste na pele, mesmo depois que o sol já foi embora. Ou como uma lembrança que não encontra lugar, e por isso permanece.
"Não Me Abandone Jamais" é assim.
Não é a história que se impõe. É o que fica entre ela. Os intervalos. Os olhares que demoram um segundo a mais. 'O quase.'
Há uma aceitação que não chega a ser calma, mas também não grita. Apenas existe - discreta - como um destino que se aprende a tocar sem nunca compreender. 
Eles vivem como quem já sabe. E, ainda assim, vivem. Amam como quem segura algo muito delicado, sabendo, desde sempre, que vai escapar. Pequenas coisas tentam permanecer: uma fita, um desenho, uma espera. Como se fosse possível guardar o que já nasce partindo. 
E talvez seja isso que mais doa: não a perda, mas a consciência dela antes do tempo.
Cada instante carrega, dobrado em si, o seu próprio fim. Como se o tempo não passasse - apenas se despedisse.
Tudo é contido. Quase sussurrado. E é justamente por isso que atravessa.
No fim, não é a tragédia que fica. É uma ternura difícil de explicar,  dessas que a gente não mostra,  mas guarda.
É exatamente isso: uma dor que não  explode, mas permanece, e depois vai se acomodando dentro da gente.
"Não  Me Abandone Jamais" parece quase ensinar esse movimento: não  o de superar, mas o de aprender a carregar.  Como se a intensidade, com o tempo, não  diminuísse  o afeto - apenas encontrasse um lugar silencioso para existir.
E talvez por isso,  o filme seja tão  bonito. O que fica é  uma espécie  de tristeza serena...rara.

Maria Lucia de Almeida. 

Entre Dois Mundos




Era uma tarde de abril e de céu muito azul, dessas que parecem suspender o tempo na minha cidade. Entrei na livraria quase sem intenção, como quem busca apenas um intervalo, e me sentei no café com um livro que não cheguei a abrir.
Havia um silêncio confortável ali, atravessado pelo som baixo das xícaras e pelo virar de páginas ao redor. Tudo parecia em ordem : externo, visível, intacto. Foi quando ela surgiu.
Pequena, quase invisível no movimento dos adultos, aproximou-se com uma naturalidade que não pedia licença:
— Compra bala na minha mão, moça?
Havia algo no modo como ela dizia , não era urgência, nem insistência. Era presença. Como se aquele gesto simples carregasse um mundo inteiro que não se explicava.
Por um instante, tudo se deslocou.
Não era mais sobre balas, nem sobre compra. 
Era sobre o encontro - breve, exato - entre dois mundos que, por um segundo, deixaram de ser separados.
Olhei para ela, e havia ali uma espécie de inteireza difícil de nomear. Algo que não pedia, não faltava, apenas era.
E quando ela se foi, levando consigo o pequeno gesto, ficou um silêncio diferente. Mais fundo. Como se algo em mim tivesse sido tocado sem aviso e, de algum modo, reorganizado.
Saí dali com a sensação de que a vida, às vezes, se revela assim: em instantes mínimos, quase invisíveis, mas que, uma vez atravessados, já não nos devolvem ao mesmo lugar.

Maria Lucia de Almeida

Tentativas para ausência de chão





Passei anos tentando alcançar alguém que talvez nunca tenha existido completamente.
Uma imagem de mim mesma construída entre expectativas, silêncios e pequenas renúncias diárias. A cada escolha feita para sobreviver, 
deixei para trás fragmentos do que eu era. Não percebi quando meus próprios passos começaram 
a me estranhar.
Houve um tempo em que pensei que ser forte significava suportar tudo sem questionar. Engolir
a tristeza, adaptar a alma, diminuir os desejos, caber. Mas ninguém atravessa a própria vida sem pagar um preço. E o meu preço foi assistir, lentamente, ao desaparecimento da mulher que 
eu queria ser.
Hoje carrego um cansaço difícil de explicar. 
Não é apenas do corpo. É um cansaço da esperança interrompida, das tentativas repetidas, das versões de mim que morreram em silêncio enquanto eu fingia continuar inteira. Há dias em que olho para dentro e encontro apenas folhas secas atravessando corredores vazios.
Lutei contra mim mesma tantas vezes que já não sei distinguir derrota de sobrevivência. Talvez eu tenha perdido batalhas importantes no instante em que abandonei meus próprios ritos para atender o mundo. Talvez eu nunca tenha aprendido a permanecer ao meu lado.
E ainda assim… respiro.
Mesmo triste.
Mesmo incompleta.
Mesmo cansada de carregar ausências.
Existe algo profundamente humano em continuar respirando quando tudo dentro de nós pede repouso. Não um repouso de morte, mas de rendição. Como quem finalmente solta aquilo que nunca conseguiu salvar.
Talvez a vida não tenha vindo para me transformar naquilo que sonhei. Talvez tenha vindo apenas para me ensinar a atravessar o vento sem desaparecer completamente.
Então que assim seja.
Que eu não precise mais vencer todas as dores.
Que eu não precise mais explicar todos os silêncios.
Que eu possa apenas existir, ainda que em ruínas às vezes.
E respirar.
Porque hoje, respirar já é coragem.

Maria Lucia de Almeida 

O que me olha




Sempre que ia para o trabalho, costumava sentar junto à janela e observar a cidade passar como um filme que não me dizia respeito.
Pessoas subiam, desciam, falavam ao telefone, carregavam suas urgências, e eu permanecia ali, como se estivesse levemente fora do tempo.
Foi então que percebi o vidro. Não a paisagem além dele, mas o reflexo. Por um instante, não soube dizer se olhava para fora ou para mim.
As imagens se sobrepunham : rostos, prédios, céu, movimento… E havia sempre alguém me olhando:
A  velhinha tristemente maquiada.
O  garoto que chorava ao pedir esmola.
O olhar pesado do vendedor ambulante que carregava mais do aquilo que oferecia.
A desolação dos desempregados nos bancos da praça. 
O desespero no homem que pedia o empréstimo da ' hora da fome'.
Foi então que algo em mim começou a desacelerar. Atravessei todos aqueles rostos - e havia uma densidade no ar, não apenas de movimento, 
mas de vidas que se tocavam sem se encontrar.
Em meio a tudo, um lamento quase silencioso atravessava o espaço. Não vinha de um só lugar, mas parecia espalhado, como uma pergunta antiga que ainda não encontrou resposta.
Continuei olhando pela janela do ônibus, mas já não era o mesmo olhar. Porque, por um instante, a cidade deixou de ser cenário. Tornou-se presença.
E algo nela, difuso, fragmentado, profundamente humano - encontrou em mim um lugar de reconhecimento.

Maria Lúcia de Almeida 

Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite.



 
Em  "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite" a narradora é  uma mulher chamada Alma que parece caminhar pela vida como quem recolhe cacos no escuro. Ela atravessa a vida entre afetos tortos,  silêncios,  lembranças e pequenas ruínas do cotidiano. Nada explode de verdade, mas tudo vai rachando devagar. 
Os " minúsculos assassinatos " não  são  crimes com sangue. São  pequenas mortes que acontecem todos os dias: uma palavra que fere, um amor que esfria, um sonho abandonado, a infância ficando longe, a solidão ocupando espaço sem pedir licença. São  os instantes quase invisíveis em que alguma coisa dentro da gente deixa de existir. 
E  ainda assim o livro nao é  desesperado. Os "copos de leite" aparecem como uma tentativa de ternura, de sobrevivência, de continuar viva apesar dessas perdas pequenas e constantes, como quem ainda procura algum conforto simples, enquanto  o mundo, discretamente, nos desmonta. 
A narrativa vai costurando memórias,  encontros e ausências.  Há  pessoas que passam por ela deixando marcas mínimas,  mas profundas - relações  que prometem abrigo e acabam virando distância - e os "minúsculos assassinatos" acontecem justamente aí: na delicadeza brutal da rotina. Morre um pouco da personagem, quando ela aceita menos do que merece, quando percebe que certos afetos não  voltam, quando entende que crescer também  significa perder versões  de si mesma. Então os  'copos de leite' funcionam como rituais de sobrevivência; o leite aquece, alimenta, lembra infância, proteção. Em meio às  perdas miúdas,  o leite quente à noite, vira um gesto silencioso  de resistência.
O mais bonito no livro da Fal de Azevedo é  que ela transforma o banal em poesia. Faz a gente perceber que a vida raramente se parte de uma vez, mas através de pequenas mortes emocionais que ninguém  enterra, e por isso continuam existindo dentro da memória,  e nos transformam, como as coisas que deixamos de dizer, de pedir, de viver. 
O livro tem o talento raro de fazer o leitor reconhecer partes de si em frases aparentemente simples. É  daqueles livros que continuam ecoando depois da última página, que  ficam morando devagar dentro da gente e parecem conversar baixinho com a gente na cozinha, de madrugada. Terminamos a leitura com a sensação de ter conversado com alguém  muito íntimo,  mesmo sem saber exatamente quem.

Maria Lucia de Almeida 

sábado, 23 de maio de 2026

Filmes & Filmes

 


Há quem olha para os filmes que amo e os chamam de lentos, melancólicos, silenciosos demais, até  mesmo chatos.Talvez porque estejam acostumados a histórias que apenas passam pelos olhos, enquanto eu procuro aquelas que atravessam a alma.
Gosto dos filmes bem feitos, daqueles em que cada gesto parece carregado de intenção, em que os atores não apenas interpretam, mas habitam a dor, a alegria e o mistério de seus personagens. E existem, para mim, duas espécies de cinema. Há os filmes que são puro deleite: um bom policial investigativo que nos prende pela inteligência, aventuras cheias de movimento e vertigem, romances leves que aquecem o coração, ou ainda as ficções que nos permitem escapar do mundo por algumas horas. Esses filmes divertem, distraem, fazem rir, suspirar, esquecer.

Mas existem os outros.

Os filmes que permanecem depois dos créditos. Aqueles que mexem nas partes mais escondidas de nós, que deixam perguntas ecoando em silêncio. Filmes que não têm medo da tristeza, porque compreendem que a vida também é feita de ausências, perdas, delicadezas e sombras. Nem toda história precisa terminar feliz para ser bela. A vida mesma não se entrega a definições exatas; ela muda de cor conforme a luz do dia e o peso do coração.  
Por isso, quando alguém diz não gostar de determinado filme de arte, evito qualquer arrogância. Ainda assim, às vezes penso - talvez a pessoa apenas não o tenha compreendido. Ou pior: talvez não o tenha sentido. Porque certos filmes não se entendem apenas com a mente. Eles pedem silêncio, entrega e um coração disposto a ser tocado.
E isso aparece muito na maneira como eu sinto as coisas. Não olho para um filme apenas como narrativa ou técnica, procuro o que pulsa por baixo da história.  Talvez por isso os filmes mais lentos me agradam tanto. Eles não têm pressa de chegar ao fim; permitem que a emoção respire. Como a vida, que raramente acontece em explosões contínuas: quase sempre ela acontece nos intervalos, nos silêncios, nos olhares demorados, nas coisas que não são ditas.

Maria Lucia de Almeida 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dramática, eu !?




Dizem que sou dramática, e talvez  seja verdade.
Há  em mim uma certa inclinação para sentir  demais, para alongar os instantes, para dar às pequenas  coisas uma dimensão  quase teatral.
Mas o que eu descrevo, não  é  aquele drama vazio, 
de exagero  por hábito. É  outra coisa, é percepção ampliada. É olhar para o cotidiano e enxergar camadas que muita gente não percebe. 
Isso é matéria-prima de poesia. 
Um suspiro não é apenas um suspiro, é um acontecimento. Um silêncio não é vazio, é carregado de significados que ninguém pediu, mas que eu inevitavelmente encontro.
Meu filho quando diz que sou dramática,  diz com a leveza de quem observa de fora, talvez sem saber que o drama não  é  exagero gratuito,  é uma força  de estar no mundo com as portas abertas. Porque quem sente pouco passa ileso,  mas também  passa vazio. Eu não.  Eu atravesso.
Gosto dos dramas, sim. Gosto dos pesos das palavras, do gesto que se prolonga, da emoção que não  se esconde. Há  beleza nisso. Uma beleza profundamente humana. A arte afinal, não nasce da indiferença. Nasce desse transbordamento que, as vezes incomoda, às vezes diverte,  mas sempre revela. 
Sou dramática,  que seja. Vivo com intensidade,  não economizo alma. E, no final das contas, talvez o mundo precise mesmo de alguns exageros,  porque são eles que nos lembram que sentir vale a pena.
Então,  penso que a melhor definição seja essa: você não é  "dramática", você  é  expressiva com intensidade. E, sim...isso é  profundamente poético. 

Maria Lucia de Almeida

A Forma da Água




Sempre fui fã do diretor de cinema Guilhermo Del Toro e de seus filmes que são  um mergulho no mundo dos arquétipos e da simbologia, em ambientes realistas e surrealistas ao mesmo tempo. Entre seus melhores trabalhos estão: " O Labirinto do Fauno", " A Espinha do Diabo", "A Colina Escarlate ", " Mutação " e "A Forma da Água".
Esse último,  "A Forma da Água", é  um filme ousado que discorre sobre preconceito e intolerância em um universo  mágico, cheio de alegrias para iluminar aqueles que não  se encaixam na sociedade.
Na verdade, o filme é  quase uma fábula do bem contra o mal, dos valores éticos,  da pureza e da nobreza, da dualidade de conflitos em meio a um mundo opressor. Uma história  que encanta e faz sonhar, passada nos anos 1960, com um toque de romantismo dos velhos filmes, algumas cenas engraçadas, outras picantes, e um elenco de primeira. 
Sally Hawkins na personagem de Elisa é  uma mulher que não  fala, mas ao mesmo tempo conversa com as pequenas coisas, como se nelas estivesse guardado o sentido do mundo. Há  algo no silêncio  de Elisa que fala mais alto que qualquer palavra, um silêncio que escorre pelas paredes úmidas de um laboratório, como a própria água,  paciente  e inevitável. 
Michel Shannon,  o chefe de segurança Richard, faz um oficial linha dura no período em que a guerra fria estava no auge. Na verdade, um 'cidadão  do bem' que nao presta para nada. Um homem que confunde controle com virtude.
Richard Jenkins, o Giles,  faz o vizinho e companheiro de solidão  de Elisa, um senhor gay que nunca pode mostrar seus desejos. Entre ele e Elisa, e ao redor deles, orbitam afetos silenciosos: a lealdade, a amizade, a solidão compartilhada, como ecos de um mesmo coração cansado.
Já  a criatura, tão  distante do humano, carrega em si uma ternura ancestral, quase sagrada,  como se  tivesse atravessado eras apenas para lembrar que sentir ainda é  possível.  
Há, no filme, algo ainda mais profundo que o romance: a ideia  de que amar é  reconhecer o outro em sua estranheza e, ainda assim, escolher ficar. Como um conto antigo, sussurrado ao pé  do ouvido, " A Forma da Água " nos lembra que a beleza nao está na forma , mas no encontro. Que aquilo que é  visto como monstruoso, pode, na    verdade, ser o unico lugar onde a pureza sobreviveu intacta.  A deliciosa trilha sonora,  com seu caráter nostálgico, também  contribuiu para o lado mais doce,  pois além  de tudo, o filme é uma bela história  de amor,  de romance impossível  entre a Bela e a Fera e da paixão  mais sincera de 'quem ama  o feio bonito lhe parece'. O que o diretor   Guilhermo Del Toro faz é  misturar a magia dos elementos fantásticos com a beleza da conexão  entre as pessoas.

Maria Lucia de Almeida. 

Blade Runner

 



Vocês me perguntam porque gosto tanto desse filme…
Talvez porque, em Blade Runner, não exista apenas uma história - existe uma espécie de silêncio que fala comigo. Um silêncio molhado de chuva, iluminado por néons cansados, onde tudo parece à beira de desaparecer… inclusive o que chamamos de humano. 
Gosto porque, sob o olhar de Ridley Scott, o futuro não é grandioso, é melancólico. É um lugar onde as perguntas doem mais do que as respostas. Onde viver não basta… é preciso sentir que se vive.
E há algo em mim que se reconhece nesse cansaço.
Quando Harrison Ford caminha por aquela cidade, perdido entre dever e dúvida, sinto que todos nós também caminhamos assim: tentando entender até onde vai nossa humanidade, e onde começa aquilo que apenas imita o sentir. Porque, no fundo, às vezes também nos sentimos programados… repetindo dias, emoções, ausências.
Mas é em Rachael, vivida por Sean Young, que algo em mim se desfaz. Ela é quase. Quase humana, quase inteira, quase pertencente. E talvez seja esse “quase” que mais me comove, porque também somos feitos disso: de incompletudes, de memórias que nos inventam, de desejos que não sabemos nomear.
E então a música de Vangelis chega… como se tocasse não os ouvidos, mas alguma parte esquecida da alma. E tudo se amplia. Tudo ganha um peso bonito e triste, como se cada cena carregasse a delicadeza de algo que está prestes a acabar.
Gosto desse filme porque ele não me dá conforto. Ele me inquieta. Ele me olha de volta.
E, talvez, porque em meio a máquinas que desejam mais vida, eu me lembre de que também estou aqui, replicando, tentando sentir mais fundo, existir com mais verdade, e encontrar, mesmo nas ruínas, algum sentido que ainda pulse.
Talvez eu goste tanto porque, no fim…
Blade Runner não fala sobre o futuro. Fala sobre nós.

Maria Lucia de Almeida


terça-feira, 24 de março de 2026

Uma volta ao passado.



Através das lembranças, volto ao passado
como quem abre uma janela antiga e deixa o vento tocar o rosto. Flagrante de fuga ou de loucura, entrego-me ao que fui sem pedir licença ao tempo.
Recolho vestígios: uma fita desbotada, um gesto interrompido, um sonho que não amanheceu.
Entrego-me sem defesa ao que restou de mim nos cantos esquecidos do tempo. Há  um silêncio antigo me chamando pelo nome, um eco de risos distantes guardados em gavetas, segredos costurados em silêncio, sonhos ainda perfumados de inocência. 
Visto- me de pureza e de felicidade,  como quem veste um vestido leve que o tempo não desfez.  Levo comigo o perfume de alfazema, leve, persistente, como a memória  que não se apaga.
E, então,  volto àquele quarto de menina, onde o mundo cabia em sonhos, a vida era apenas promessa e o coração não conhecia ausências. 
Ali, permaneço  por inteira: intocada pela pressa dos anos, como a infância que nunca volta, mas que  também  nunca parte. 
O espelho me olha de longe, como se eu ali já  não pertencesse,  como uma felicidade antiga, quase irreconhecível; uma volta ao passado, não como quem chega, mas como quem se perde em caminhos já  desfeitos.
Maria Lucia de Almeida 

sexta-feira, 20 de março de 2026

A Partida

Naquele tempo o mundo parecia suspenso entre o que partia e o que ainda insistia em ficar. 
Não se sabia ao certo se era saudade ou ternura; talvez uma mistura silenciosa das duas, dessas que doem devagar, como a luz da tarde se despedindo  sem pressa. Havia uma dor mansa, quase bonita que se espalhava pelos cantos do pensamento, como se cada lembrança carregasse um pouco de você. 
Naquele momento , o tempo não pediu licença,  ele simplesmente passou. Levou consigo hisitaçoes,  as perguntas, as pequenas e as grandes desculpas que ainda tentavam sobreviver.
Então  o tempo passou - não  como quem anda, mas como quem leva.  E levou as perguntas, as pausas, as derradeiras desculpas, como folhas soltas na corrente de um adeus inevitável. 
E, quando tudo enfim se aquietou, restou apenas a certeza tardia que algumas coisas não se resolvem, apenas nos atravessam e seguem,  mesmo quando não estamos prontos para deixá-las ir.
Ficou apenas isso : uma ausência  que ainda respira, um instante que termina, e o peso delicado de saber que algumas histórias não  se encerram - apenas continuam, silenciosas , dentro da gente, em um eterno sentir.

Maria Lucia de Almeida 



quarta-feira, 4 de março de 2026

Quando o dia não clareia

Há  dias em que o mundo pesa. O corpo acorda, mas a alma parece querer dormir um pouco mais. O que antes era rotina agora custa tanto: levantar, escovar os dentes, olhar o céu. Tudo parece distante,  nublado,  como se o tempo passasse e a gente ficasse parado dentro dele. 
Ela sabe disso. Ela sente no peito essa sombra que não se explica, que não se resolve com palavras otimistas e nem com promessas de que ' vai passar'. Porque quem está dentro da tristeza não  quer consolo forçado, só  um lugar seguro para descansar. 
Mas há algo sutil  que resiste: o toque morno  de uma xícara  de café,  um verso bonito que chega de surpresa, o cheiro das manhãs.  São  pequenos sinais de que ainda existe beleza - mesmo quando não se vê. 
Talvez viver,  nesses  dias, seja apenas isso: ficar. Não  se cobrar alegria. Apenas estar. E confiar,  mesmo sem forças,  que a dor também  tem seus ciclos, e que dentro do silêncio  germina alguma transformação.

Maria Lucia de Almeida.