sexta-feira, 24 de julho de 2026

Amor entre Livros



Sempre vivi rodeada de livros.  
Minha mãe lia muito. A lembrança mais antiga que guardo dela é sentada em sua poltrona preferida, um livro aberto nas mãos e um silêncio que, hoje percebo, também fazia parte da leitura.   
Anos mais tarde, meu irmão mais velho — quinze anos mais velho do que eu — montou uma pequena biblioteca em casa. 
Era um verdadeiro tesouro. Todas as tardes, depois que voltava do colégio, eu me enfiava ali como uma ratinha de biblioteca, farejando histórias. Comecei por Mark Twain, Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Hermann Hesse, Salinger, Albert Camus... E nunca mais parei. 
Mas não é exatamente sobre livros que quer falar. Ou talvez seja. Porque a minha lembrança mais remota de um encontro com o amor nasceu justamente entre as páginas de um livro. 
Eu tinha apenas seis anos. Minha mãe costumava trocar livros com uma vizinha, e enquanto as duas conversavam, eu passava a tarde brincando com os filhos gêmeos dela. Chamavam-se Bito e Fuca. 
Até hoje, confesso, nunca soube seus verdadeiros nomes. Para mim, eles sempre foram apenas Bito e Fuca. 
Eu adorava aquelas visitas. A casa deles era toda branca, de dois andares, e havia um jardim na frente que, aos meus olhos de criança, parecia uma floresta encantada. Ali cabiam pique-esconde, bola, aventuras imaginárias... e, sem que eu soubesse, também cabia o primeiro amor. 
Um dia, antes de minha mãe devolver um dos livros à amiga, desenhei um enorme coração vermelho atravessado por uma flecha. Bem no meio escrevi, com toda a convicção que só uma menina de seis anos consegue ter:

"ML ❤️ Bito "

Sem que minha mãe percebesse, escondi o desenho entre as páginas do livro. Achei uma ótima ideia. Nem me preocupei em guardar o título. Afinal, na minha cabeça, os grandes gestos não precisavam de planejamento. 
Passaram-se alguns dias. Quando chegamos novamente à casa da vizinha, antes mesmo de entrarmos, vi o Bito no jardim. Ele segurava meu desenho nas mãos. Estava vermelho, indignado, esbravejando tudo o que sabia — e também o que não sabia. Enquanto isso, a mãe e o irmão riam tanto que mal conseguiam parar em pé. 
Minha mãe, coitada, sem entender absolutamente nada.  Eu apenas soltei sua mão e saí correndo de volta para casa. O coração parecia querer fugir do peito. O rosto queimava de vergonha. E as lágrimas brotavam antes mesmo que eu pudesse entender por que doíam tanto.  
Nunca mais acompanhei minha mãe naquelas visitas.
Pouco tempo depois, a família mudou de cidade. A casa branca permaneceu fechada durante muito tempo. E, sempre que eu passava diante dela, acabava me lembrando da menina atrevida que resolveu declarar seu amor escondendo um coração dentro de um livro. 
Hoje penso que foi uma bela estreia. 
Meu primeiro amor não deu certo. Mas nasceu exatamente onde tantas outras paixões nasceriam depois: entre livros. 
Talvez tenha sido por isso que, desde então, nunca deixei de acreditar que existe uma forma muito bonita de amar. Aquela em que duas pessoas trocam livros, histórias, silêncios... e, entre uma página e outra, deixam também uma dedicatória escrita à mão, apaixonada.
Afinal, alguns amores passam. Os livros ficam. 
E, às vezes, é justamente por causa deles que a vida continua nos contando as suas histórias.

Maria Lúcia de Almeida

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sua lembrança




Há pessoas que partem sem fazer barulho. 
Vão-se como um raio que risca o céu por um breve instante e, quando percebemos, já desapareceram atrás de algum horizonte que nunca chegaremos a conhecer. 
Às vezes ainda tenho a impressão de ver você caminhando nos meus passos. Não sei se é só memória ou se sua presença aprendeu a morar dentro do meu tempo. Caminho, e por um instante acredito que você ainda está ali, dividindo comigo 
o mesmo caminho, a mesma hora, o mesmo silêncio.
Nunca soube ao certo em que ponto nossos vidas  se separaram. Talvez você tenha acenado antes de partir e eu, distraída com meu próprio cansaço, não tenha visto. Há fadigas que nos roubam até  mesmo os adeuses. 
Você seguiu. Eu permaneci. Não por escolha, mas porque algumas despedidas acontecem sem que ninguém as anuncie. 
Restou-me apenas aprender a conversar com a sua ausência, como quem conversa com o vento; mesmo sabendo que ele nunca responde, mas ainda assim  está ali, fazendo-nos  companhia.
Naquela noite adormeci com nossas lembranças e sonhei. Sonhei com velhas mágoas, com caminhos interrompidos e com a sua imagem já perdida, distante, envolta naquela névoa suave onde a saudade costuma guardar aquilo que já  não podemos  mais tocar.

Maria Lúcia de Almeida

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Grande Sertão/ Veredas

 


Há livros que a gente lê. Outros, a gente atravessa. Assim é 'Grande Sertão: Veredas'. Nunca consegui enxergá-lo apenas como um romance. Para mim, ele é um poema longo, desses que não terminam na última página, mas continuam ecoando dentro de quem os leu.  
O sertão de Guimarães Rosa não é somente um lugar perdido entre veredas, rios e jagunços. 
É também a paisagem da alma humana. Cada caminho tortuoso parece representar as nossas próprias dúvidas; cada travessia, uma escolha; cada silêncio, um sentimento que não encontrou coragem para ser dito. 
E talvez seja por isso que a história de Riobaldo e Diadorim me comova tanto. Há naquele amor uma delicadeza que resiste justamente porque não pode florescer livremente. É um amor feito mais de olhares do que de palavras, mais de ausência do que de presença. Um amor que existe inteiro mesmo quando permanece escondido. 
Guimarães Rosa parecia conhecer um segredo que poucos escritores alcançam: o de que os maiores conflitos não acontecem nas batalhas, mas dentro de nós. O bem e o mal, a coragem e o medo, a fé e a dúvida caminham lado a lado, como veredas que ora se afastam, ora voltam a se encontrar.
"O Sertão: é dentro da gente". 
Ele mora em cada ser humano. E talvez viver seja exatamente isso: atravessar esse sertão interior, procurando um sentido para a própria existência, enquanto o coração tenta compreender aquilo que nem as palavras conseguem explicar.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Copa do Mundo / 2026


 "A esperança,  essa velha companheira dos brasileiros, insiste em nos dar a mão."

E ficamos assim... mais uma vez no nosso canto. Não exatamente humilhados pela derrota, porque perder faz parte do jogo, mas tomados por uma estranha sensação de vazio. 
A bola para de rolar, a festa acaba, e o Brasil volta a ser apenas o Brasil. 
Enquanto os estádios se apagam, as luzes das ruas continuam acesas para quem não tem casa. O preço dos alimentos segue subindo, a feira cabe cada vez menos no bolso, os remédios pesam, as filas dos hospitais persistem, e há quem sonhe não com uma taça, mas com um emprego, um prato de comida, um teto onde possa dormir em paz.
Talvez seja esse o campeonato que mais nos desafia. Um campeonato que não se vence com gols, mas com escolas que acolhem, hospitais que funcionam, políticas sociais que devolvam dignidade a quem foi ficando pelo caminho. Porque há derrotas que doem noventa minutos, e há outras que atravessam anos. 
Mesmo assim, conhecendo o brasileiro como conheço, sei que um dia vestiremos novamente a camisa amarela. Torceremos, sofreremos, faremos promessas e acreditaremos outra vez. Não porque o futebol resolva os nossos problemas, mas porque a esperança, essa mania brasileira, insiste em sobreviver. 
E talvez seja justamente dela que precisemos para cobrar um país que celebre menos as vitórias passageiras e se empenhe mais em vencer as derrotas permanentes. 
Porque Pátria, ai... não  é  a taça  que levantamos de tempos em tempos. Pátria é  essa dor no peito que nunca esmorece e essa esperança teimosa, que , apesar de tudo, se recusa a morrer.

Maria Lúcia de Almeida