quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sua lembrança




Às vezes ainda tenho a impressão de ver você caminhando nos meus passos. Não sei se é só memória ou se sua presença aprendeu a morar dentro do meu tempo. Caminho, e por um instante acredito que você ainda está ali, dividindo comigo 
o mesmo caminho, a mesma hora, o mesmo silêncio.
Nunca soube ao certo em que ponto nossos vidas  se separaram. Talvez você tenha acenado antes de partir e eu, distraída com meu próprio cansaço, não tenha visto. Há fadigas que nos roubam até  mesmo os adeuses. 
Você seguiu. Eu permaneci. Não por escolha, mas porque algumas despedidas acontecem sem que ninguém as anuncie. 
Restou-me apenas aprender a conversar com a sua ausência, como quem conversa com o vento; mesmo sabendo que ele nunca responde, mas ainda assim  está ali, fazendo-nos  companhia.
Naquela noite adormeci com algumas  lembranças e sonhei. Sonhei com velhas mágoas, com caminhos interrompidos e com a sua imagem já perdida, distante, envolta naquela névoa suave onde a saudade costuma guardar aquilo que já  não podemos  mais tocar.

Maria Lúcia de Almeida

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Grande Sertão/ Veredas

 


Há livros que a gente lê. Outros, a gente atravessa. Assim é 'Grande Sertão: Veredas'. Nunca consegui enxergá-lo apenas como um romance. Para mim, ele é um poema longo, desses que não terminam na última página, mas continuam ecoando dentro de quem os leu.  
O sertão de Guimarães Rosa não é somente um lugar perdido entre veredas, rios e jagunços. 
É também a paisagem da alma humana. Cada caminho tortuoso parece representar as nossas próprias dúvidas; cada travessia, uma escolha; cada silêncio, um sentimento que não encontrou coragem para ser dito. 
E talvez seja por isso que a história de Riobaldo e Diadorim me comova tanto. Há naquele amor uma delicadeza que resiste justamente porque não pode florescer livremente. É um amor feito mais de olhares do que de palavras, mais de ausência do que de presença. Um amor que existe inteiro mesmo quando permanece escondido. 
Guimarães Rosa parecia conhecer um segredo que poucos escritores alcançam: o de que os maiores conflitos não acontecem nas batalhas, mas dentro de nós. O bem e o mal, a coragem e o medo, a fé e a dúvida caminham lado a lado, como veredas que ora se afastam, ora voltam a se encontrar.
"O Sertão: é dentro da gente". 
Ele mora em cada ser humano. E talvez viver seja exatamente isso: atravessar esse sertão interior, procurando um sentido para a própria existência, enquanto o coração tenta compreender aquilo que nem as palavras conseguem explicar.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Copa do Mundo / 2026


 "A esperança,  essa velha companheira dos brasileiros, insiste em nos dar a mão."

E ficamos assim... mais uma vez no nosso canto. Não exatamente humilhados pela derrota, porque perder faz parte do jogo, mas tomados por uma estranha sensação de vazio. 
A bola para de rolar, a festa acaba, e o Brasil volta a ser apenas o Brasil. 
Enquanto os estádios se apagam, as luzes das ruas continuam acesas para quem não tem casa. O preço dos alimentos segue subindo, a feira cabe cada vez menos no bolso, os remédios pesam, as filas dos hospitais persistem, e há quem sonhe não com uma taça, mas com um emprego, um prato de comida, um teto onde possa dormir em paz.
Talvez seja esse o campeonato que mais nos desafia. Um campeonato que não se vence com gols, mas com escolas que acolhem, hospitais que funcionam, políticas sociais que devolvam dignidade a quem foi ficando pelo caminho. Porque há derrotas que doem noventa minutos, e há outras que atravessam anos. 
Mesmo assim, conhecendo o brasileiro como conheço, sei que um dia vestiremos novamente a camisa amarela. Torceremos, sofreremos, faremos promessas e acreditaremos outra vez. Não porque o futebol resolva os nossos problemas, mas porque a esperança, essa mania brasileira, insiste em sobreviver. 
E talvez seja justamente dela que precisemos para cobrar um país que celebre menos as vitórias passageiras e se empenhe mais em vencer as derrotas permanentes. 
Porque Pátria, ai... não  é  a taça  que levantamos de tempos em tempos. Pátria é  essa dor no peito que nunca esmorece e essa esperança teimosa, que , apesar de tudo, se recusa a morrer.

Maria Lúcia de Almeida