Quando eu era menina, sonhava acordada
com uma casinha na mata, de porta encantada.
Teto de madeira, paredes de pedra,
uma chaminé fumegando entre a névoa.
Lá dentro, um fogão de lenha aceso,
um bule de chá, um aconchego imenso.
Nas prateleiras, frascos de vidro,
ervas secando, segredos antigos.
Eu teria um gato de olhar misterioso,
um passarinho de canto amoroso,
e talvez, à tardinha, um esquilo atrevido
viesse buscar seu pedaço de abrigo.
Colheria alecrim, hortelã e canela,
conversaria com a lua pela janela.
Conheceria o segredo das flores,
das raízes, dos ventos e seus rumores.
Não precisaria de relógio ou calendário,
meu tempo seria um doce itinerário.
A chuva cantando no telhado,
o vento passeando pelo arvoredo.
E quando a noite vestisse a floresta,
acenderia uma vela para a hora da festa.
Talvez uma estrela descesse do céu
para dormir no meu velho chapéu.
Diriam por aí: mora ali uma bruxa!
Tem uma vassoura encostada na porta,
fala com os bichos, conhece as plantas,
e sabe das coisas que a gente nem conta.
Mas eu sorriria atrás da vidraça,
feliz com a minha pequena morada.
Afinal, que mal há em ser feiticeira
quando a natureza é nossa companheira?
Hoje, quando vejo uma casa assim,
alguma coisa desperta dentro de mim.
Volta a menina de sonhos e encantos,
que conversava com flores e cantos.
E penso que, se a vida me desse escolha,
eu ainda escolheria aquela velha morada,
entre árvores, musgos e flores silvestres,
onde até o silêncio parece ter asas.
Porque há sonhos que o tempo não leva,
ficam guardados como sementes na terra.
E talvez, em algum lugar da floresta,
a minha casinha ainda me espera.
Maria Lúcia de Almeida ❤️
