Há um cansaço silencioso nas formas que herdamos para amar. Como se ainda repetíssemos gestos antigos com mãos que já não acreditam neles. A casa permanece de pé, mas algo nela cedeu: uma rachadura fina, quase invisível, por onde o mundo começou a entrar.
E então nos vemos assim: ora colados demais, tentando salvar alguma inteireza que já não existe, ora soltos demais, como se o desmanchar fosse a única liberdade possível.
No primeiro movimento, endurecemos. Fazemos do outro um abrigo fixo, uma promessa de permanência. Encostamos ali tudo o que em nós treme. E, pouco a pouco, deixamos de sentir o vento, o fora, o imprevisto. O amor vira um quarto fechado, seguro, mas sem ar.
No outro extremo, abrimos as janelas todas de uma vez. O mundo entra com força. E nós, sem paredes, nos tornamos passagem. Tudo nos atravessa, nada permanece. Há intensidade, sim, mas ela não se sustenta, não cria corpo, não vira história. É chama que não encontra matéria para durar.
Entre esses dois modos de desaparecer, algo em nós tenta - ainda que de forma desajeitada -aprender outro ritmo.
Talvez não seja mais sobre encontrar um lugar fixo onde repousar, nem sobre viver à deriva como se cada encontro fosse apenas um instante descartável. Talvez seja outra coisa: a arte difícil de pousar sem se aprisionar, de partir sem se perder.
Há, dentro de nós, essa antiga vontade de espelho — de sermos reconhecidos como inteiros no olhar do outro. Mas há também um impulso mais sutil, quase tímido: o de existir sem garantias, sem a necessidade de completar ou ser completado.
E é aí que algo começa a mudar.
O amor, então, deixa de ser essa tentativa de eternidade ou esse consumo apressado de intensidades. Ele passa a ser um gesto mais delicado: o de tecer com o outro sem deixar de se mover, o de criar um território que não seja prisão, mas também não se dissolva ao primeiro vento.
Um lugar vivo.
Não mais a espera imóvel, nem a fuga constante , mas uma presença que se constrói e se desfaz, que se refaz, que se permite afetar e, ainda assim, permanecer suficiente para continuar.
Talvez seja isso que ainda estamos aprendendo, sem saber bem como: amar sem endurecer, amar sem desaparecer.
E sustentar, nesse entre, uma forma nova de respirar juntos no mundo.
Maria Lucia de Almeida
