domingo, 21 de dezembro de 2008

Entre o real e o imaginário




E, afinal, o que é a ilusão?
Seria aquela velhinha que, antes de se sentar ao sol na calçada, desenha nos lábios um vermelho tardio e espalha nas faces um pouco de rouge, como quem tenta convencer o tempo de que ele ainda não venceu?
Seria a televisão, que nos faz acreditar que americanos, franceses e alemães pensam e sonham em português?
O ourives que oferece o brilho da pedra falsa à sede humana de eternidade?
A mão que, imóvel e calculada, blefa a última cartada em um jogo de polker?
Ou os ardis, os disfarces e as inúmeras línguas pelas quais o amor aprende a mentir para continuar existindo?
Vivemos num mundo de repetições. Repetem-se os nomes, os gestos, os rostos, os desejos. 
E, de tanto se repetirem, uns acabam ocupando o lugar dos outros. Corpos tornam-se dublês de corpos. Histórias ecoam histórias. Vidas parecem versões sucessivas de uma mesma narrativa.
Nesse desfile de cópias e reflexos, quem seria a Maria original?
Talvez ninguém.
Talvez a origem seja apenas outra ilusão.
O simulacro não substitui a verdade: ele a produz. Ou, ao menos, produz seus efeitos. E quase sempre nos basta.
Como Medusa, a verdade possui um olhar perigoso. Há verdades que, quando encaradas de frente, paralisam. Por isso inventamos véus, espelhos, máscaras, ficções. Não para negar a realidade, mas para torná-la suportável.
Assim, tanto aqueles que sofrem a mentira quanto aqueles que a criam procuram proteger-se da violência do real. E o fazem administrando em si mesmos pequenas doses de ilusão — como quem toma um remédio necessário para atravessar os dias.
E assim segue a vida...
Suspensa entre aquilo que é, aquilo que significa e aquilo que se imagina.
O real, o simbólico e o imaginário entrelaçam-se de tal modo que já não se distinguem. Formam uma única fenda, um mesmo vazio, um buraco onde as certezas desabam e onde, talvez, habite o mistério de sermos quem somos.

Maria Lúcia de Almeida

Um comentário:

Anônimo disse...

Lúcia : sempre que posso dou uma passadinha por aqui para me refrescar no banho de seus sentimentos.
Gosto muito do seu jeito solto de manifestar o que sai de sua alma e do seu coração.
Beijos.
Gilberto.