O vento da tarde anunciava o outono antes mesmo que as folhas percebessem. Havia uma delicadeza melancólica atravessando o céu, como se o tempo, cansado do excesso de luz, resolvesse enfim recolher-se dentro de si. Nem sempre o outono acontece do lado de fora. Às vezes ele nasce silenciosamente na alma.
Há dias em que tudo em nós começa a perder o viço devagar. Certos sonhos, antes tão vivos, tornam-se frágeis como flores esquecidas sobre a mesa depois da festa. Permanecem belos, mas já não sustentam a mesma primavera. E então compreendemos que o frio não vem apenas do vento. Ele também mora nas ausências, nas esperas longas, nas palavras que não chegaram, nos afetos que lentamente mudaram de estação.
O outono interior não é tristeza apenas. É também recolhimento. Uma maneira silenciosa de a alma procurar abrigo dentro de si mesma. Como quem fecha as janelas ao entardecer e acende pequenas luzes para suportar a noite que se aproxima.
Talvez amadurecer seja isso: aceitar que algumas folhas precisam cair para que o coração aprenda outros modos de permanecer vivo. Porque há beleza nas coisas que se despedem com suavidade. Há ternura no que se desfaz sem ruído.
E enquanto o vento atravessa a tarde, trazendo o frio devagar, a alma busca seu próprio agasalho, não para fugir do inverno, mas para aprender a habitá-lo com delicadeza.
Maria Lúcia de Almeida

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