terça-feira, 24 de março de 2026

Uma volta ao passado.



Através das lembranças, volto ao passado
como quem abre uma janela antiga e deixa o vento tocar o rosto. Flagrante de fuga ou de loucura, entrego-me ao que fui sem pedir licença ao tempo.
Recolho vestígios: uma fita desbotada, um gesto interrompido, um sonho que não amanheceu.
Entrego-me sem defesa ao que restou de mim nos cantos esquecidos do tempo. Há  um silêncio antigo me chamando pelo nome, um eco de risos distantes guardados em gavetas, segredos costurados em silêncio, sonhos ainda perfumados de inocência. 
Visto- me de pureza e de felicidade,  como quem veste um vestido leve que o tempo não desfez.  Levo comigo o perfume de alfazema, leve, persistente, como a memória  que não se apaga.
E, então,  volto àquele quarto de menina, onde o mundo cabia em sonhos, a vida era apenas promessa e o coração não conhecia ausências. 
Ali, permaneço  por inteira: intocada pela pressa dos anos, como a infância que nunca volta, mas que  também  nunca parte. 
O espelho me olha de longe, como se eu ali já  não pertencesse,  como uma felicidade antiga, quase irreconhecível; uma volta ao passado, não como quem chega, mas como quem se perde em caminhos já  desfeitos.
Maria Lucia de Almeida 

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