quinta-feira, 23 de abril de 2026

Blade Runner

 



Vocês me perguntam porque gosto tanto desse filme…
Talvez porque, em Blade Runner, não exista apenas uma história - existe uma espécie de silêncio que fala comigo. Um silêncio molhado de chuva, iluminado por néons cansados, onde tudo parece à beira de desaparecer… inclusive o que chamamos de humano. 
Gosto porque, sob o olhar de Ridley Scott, o futuro não é grandioso, é melancólico. É um lugar onde as perguntas doem mais do que as respostas. Onde viver não basta… é preciso sentir que se vive.
E há algo em mim que se reconhece nesse cansaço.
Quando Harrison Ford caminha por aquela cidade, perdido entre dever e dúvida, sinto que todos nós também caminhamos assim: tentando entender até onde vai nossa humanidade, e onde começa aquilo que apenas imita o sentir. Porque, no fundo, às vezes também nos sentimos programados… repetindo dias, emoções, ausências.
Mas é em Rachael, vivida por Sean Young, que algo em mim se desfaz. Ela é quase. Quase humana, quase inteira, quase pertencente. E talvez seja esse “quase” que mais me comove, porque também somos feitos disso: de incompletudes, de memórias que nos inventam, de desejos que não sabemos nomear.
E então a música de Vangelis chega… como se tocasse não os ouvidos, mas alguma parte esquecida da alma. E tudo se amplia. Tudo ganha um peso bonito e triste, como se cada cena carregasse a delicadeza de algo que está prestes a acabar.
Gosto desse filme porque ele não me dá conforto. Ele me inquieta. Ele me olha de volta.
E, talvez, porque em meio a máquinas que desejam mais vida, eu me lembre de que também estou aqui, replicando, tentando sentir mais fundo, existir com mais verdade, e encontrar, mesmo nas ruínas, algum sentido que ainda pulse.
Talvez eu goste tanto porque, no fim…
Blade Runner não fala sobre o futuro. Fala sobre nós.

Maria Lucia de Almeida


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