quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Forma da Água




Sempre fui fã do diretor de cinema Guilhermo Del Toro e de seus filmes que são  um mergulho no mundo dos arquétipos e da simbologia, em ambientes realistas e surrealistas ao mesmo tempo. Entre seus melhores trabalhos estão: " O Labirinto do Fauno", " A Espinha do Diabo", "A Colina Escarlate ", " Mutação " e "A Forma da Água".
Esse último,  "A Forma da Água", é  um filme ousado que discorre sobre preconceito e intolerância em um universo  mágico, cheio de alegrias para iluminar aqueles que não  se encaixam na sociedade.
Na verdade, o filme é  quase uma fábula do bem contra o mal, dos valores éticos,  da pureza e da nobreza, da dualidade de conflitos em meio a um mundo opressor. Uma história  que encanta e faz sonhar, passada nos anos 1960, com um toque de romantismo dos velhos filmes, algumas cenas engraçadas, outras picantes, e um elenco de primeira. 
Sally Hawkins na personagem de Elisa é  uma mulher que não  fala, mas ao mesmo tempo conversa com as pequenas coisas, como se nelas estivesse guardado o sentido do mundo. Há  algo no silêncio  de Elisa que fala mais alto que qualquer palavra, um silêncio que escorre pelas paredes úmidas de um laboratório, como a própria água,  paciente  e inevitável. 
Michel Shannon,  o chefe de segurança Richard, faz um oficial linha dura no período em que a guerra fria estava no auge. Na verdade, um 'cidadão  do bem' que nao presta para nada. Um homem que confunde controle com virtude.
Richard Jenkins, o Giles,  faz o vizinho e companheiro de solidão  de Elisa, um senhor gay que nunca pode mostrar seus desejos. Entre ele e Elisa, e ao redor deles, orbitam afetos silenciosos: a lealdade, a amizade, a solidão compartilhada, como ecos de um mesmo coração cansado.
Já  a criatura, tão  distante do humano, carrega em si uma ternura ancestral, quase sagrada,  como se  tivesse atravessado eras apenas para lembrar que sentir ainda é  possível.  
Há, no filme, algo ainda mais profundo que o romance: a ideia  de que amar é  reconhecer o outro em sua estranheza e, ainda assim, escolher ficar. Como um conto antigo, sussurrado ao pé  do ouvido, " A Forma da Água " nos lembra que a beleza nao está na forma , mas no encontro. Que aquilo que é  visto como monstruoso, pode, na    verdade, ser o unico lugar onde a pureza sobreviveu intacta.  A deliciosa trilha sonora,  com seu caráter nostálgico, também  contribuiu para o lado mais doce,  pois além  de tudo, o filme é uma bela história  de amor,  de romance impossível  entre a Bela e a Fera e da paixão  mais sincera de 'quem ama  o feio bonito lhe parece'. O que o diretor   Guilhermo Del Toro faz é  misturar a magia dos elementos fantásticos com a beleza da conexão  entre as pessoas.

Maria Lucia de Almeida. 

Nenhum comentário: