Há livros que a gente lê. Outros, a gente atravessa. Assim é 'Grande Sertão: Veredas'. Nunca consegui enxergá-lo apenas como um romance. Para mim, ele é um poema longo, desses que não terminam na última página, mas continuam ecoando dentro de quem os leu.
O sertão de Guimarães Rosa não é somente um lugar perdido entre veredas, rios e jagunços.
É também a paisagem da alma humana. Cada caminho tortuoso parece representar as nossas próprias dúvidas; cada travessia, uma escolha; cada silêncio, um sentimento que não encontrou coragem para ser dito.
E talvez seja por isso que a história de Riobaldo e Diadorim me comova tanto. Há naquele amor uma delicadeza que resiste justamente porque não pode florescer livremente. É um amor feito mais de olhares do que de palavras, mais de ausência do que de presença. Um amor que existe inteiro mesmo quando permanece escondido.
Guimarães Rosa parecia conhecer um segredo que poucos escritores alcançam: o de que os maiores conflitos não acontecem nas batalhas, mas dentro de nós. O bem e o mal, a coragem e o medo, a fé e a dúvida caminham lado a lado, como veredas que ora se afastam, ora voltam a se encontrar.
"O Sertão: é dentro da gente".
Ele mora em cada ser humano. E talvez viver seja exatamente isso: atravessar esse sertão interior, procurando um sentido para a própria existência, enquanto o coração tenta compreender aquilo que nem as palavras conseguem explicar.
Maria Lúcia de Almeida
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