Há pessoas que partem sem fazer barulho.
Vão-se como um raio que risca o céu por um breve instante e, quando percebemos, já desapareceram atrás de algum horizonte que nunca chegaremos a conhecer.
Às vezes ainda tenho a impressão de ver você caminhando nos meus passos. Não sei se é só memória ou se sua presença aprendeu a morar dentro do meu tempo. Caminho, e por um instante acredito que você ainda está ali, dividindo comigo
o mesmo caminho, a mesma hora, o mesmo silêncio.
Nunca soube ao certo em que ponto nossos vidas se separaram. Talvez você tenha acenado antes de partir e eu, distraída com meu próprio cansaço, não tenha visto. Há fadigas que nos roubam até mesmo os adeuses.
Você seguiu. Eu permaneci. Não por escolha, mas porque algumas despedidas acontecem sem que ninguém as anuncie.
Restou-me apenas aprender a conversar com a sua ausência, como quem conversa com o vento; mesmo sabendo que ele nunca responde, mas ainda assim está ali, fazendo-nos companhia.
Naquela noite adormeci com nossas lembranças e sonhei. Sonhei com velhas mágoas, com caminhos interrompidos e com a sua imagem já perdida, distante, envolta naquela névoa suave onde a saudade costuma guardar aquilo que já não podemos mais tocar.
Maria Lúcia de Almeida
Nenhum comentário:
Postar um comentário