sexta-feira, 20 de março de 2009

Outono

No Outono
Sol e chuva
Se misturam.
Entre o verde
E as folhas maduras.
Época de harmonizar as diferenças.
Entre todas as coisas
Ceder e superar.
Preparar o solo
Preparar a alma
Para que novas sementes
Revitalizem o nosso lugar.

Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 13 de março de 2009

Doce Porto



"Terei o doce porto , após todos esses desanimadores
desvios de rota e todos esses vaivéns para cá e para lá?
O porto onde minha alma enfim descansada, num sólido molhe
junto ao farol giratório, contemplará o mar."

André Gide

quarta-feira, 11 de março de 2009

Por um pouco de paz




E o que queria se assim não fosse
Sonhos perfeitos jamais existiram
Minhas escolhas superaram a tarefa
De um dia existir sem conflito.
Mas o que vejo
São folhas mortas
Pensamentos vazios
Coração sem pulso
- Por que mutilastes teus passos? -
- Por que não seguistes teus ritos? -
- E agora, o que fazes? -
Dobro as esquinas
Atravesso os sinais
Atiro-me ao vento
E respiro.

Maria Lucia de Almeida

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O amor anda Impossível? - Suely Rolnik

Que a família implodiu, já sabemos. Isso não é de hoje. Dela restou uma determinada figura de homem, uma determinada figura de mulher. Figura de uma célula conjugal. Mas esta vem se “desterritorializando” a passos de gigante. O capital inflacionou nosso jeito de amor: estamos inteiramente desfocados.
Dois extremos: em um é o medo da desterritorialização que sucumbimos, ou seja, nos enclausuramos na simbiose, nos intoxicamos de familialismo, nos anestesiamos a toda sensação de mundo – endurecemos. No outro extremo – quando já conseguimos não resistir à desterritrorialização e, mergulhados em seu movimento, tornamo-nos pura intensidade, pura emoção de mundo – um outro perigo nos espreita. Fatal agora: inteiramente desprovidos de territórios, nos fragilizamos até desmanchar irremediavelmente.
Entre esses dois extremos, ou essas diferentes maneiras de morrer, ensaiam-se desajeitadamente, outros jeitos de viver.
Penélope e Ulisses – sobreviventes do naufrágio da família – encarnam em todos nós, nos arrastando para essa maldita simbiose que nos persegue, homens e mulheres, só variando seu estilo. Essa maldita vontade de espelho. Essa sede insaciável de absoluto, de eterno. Na imobilidade ranheta de Penélope ( que tece, mas eternamente os mesmos fios) ou no movimento compulsivo de Ulisses (que nada tece), é sempre a mesma chatice, a mesma impotência, o mesmo sufoco.
Penélope controla o tempo: tece a trama da eternidade. Ulisses controla o espaço: monta a imagem da totalidade. Dois estilos complementares da vontade de absoluto: imobilidade morna e melosa, mobilidade fira e seca. É a mesma esterilidade. Uma só neurose: equilíbrio homeostático. Medo de viver. Vontade de morrer.
Penélope e Ulisses somos todos – em diferentes matizes, a cada momento. Além disso, não é sempre o mesmo Ulisses que Penélope espera voltar; não é sempre a mesma Penélope que Ulisses abandona ao partir – eles variam, e cada vez mais. No entanto , a cena é sempre a mesma : há sempre uma mulher que desempenha a Penélope para ele, sempre um homem que desempenha o Ulisses para ela ( ou vive-versa). Remanescentes ativos de uma família desaparecida, que reproduzimos artificialmente sob as mais variadas formas. Reterritorialização, eterna condenação a “fazer cenas” em família, maneiras e maneiras de teimar que um dia “isto” ainda fica inteiro...
Mas...se um dia , o Ulisses – presente em cada um de nós, homens e mulheres – sai de cena: desgarra-se definitivamente de Penélope. Ele não voltará nunca mais. Supera o medo, já não precisa de espelho na espera dela, nem na de ninguém: entrega-se de corpo e alma à desterritorialização . E uma outra cena se instaura: a das máquinas celibatárias.
Sem território fixo, as máquinas celibatárias erram pelo mundo. Com cada fio que se apresenta – humano ou não – elas tecem , se tecem. E cada novo fio, elas esquecem , se esquecem. Sem identidade, são pura paixão: nascem de cada estado fugaz de intensidade que consomem. Seu vôo, já longe do sufocante mundo dos Ulisses e Penélopes, atinge universos insuspeitados. A vida se expande. Há uma alegria nessa expansão. Grandeza celibatária.
No entanto, há também uma miséria nisso tudo: é que nunca articulam-se os fios, nunca territórios se organizam. E assim o potencial de expansão contido na recém-conquistada intimidade com o mundo se desperdiça. Dispersa.
Nessa fúria de tecer com tantos fios, tão rapidamente substituídos, não mais conseguimos nos deter. O outro, descartável, é a mera paisagem que, quando muito, mimetizamos . E, almas penadas, viajamos por entre essas paisagens que se sucedem, assim como nós mesmos. Nunca pousamos em paisagem alguma de modo a constituir território e, reorganizados, prosseguimos viagem. Miséria celibatária. Há uma certa amargura nisso tudo.
Duas cenas, dois perigos, um só dano: entre a simbiose e a desterritorialização vivida como finalidade em si mesma, quem sai perdendo é o amor.
Suely Rolnik

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Tributo à Natureza



Um tronco tosco
Um mato verde
Um riacho
A caminho da nascente.
Secreta magia da floresta!
No momento atento,
Vem o vento...
Ativa e reativa a vida,
Num brinde de brinquedo
- Imerso -
Aos versos do poema do universo.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fragmentos de um romance

Muito tempo se passou sem que Joana tivesse notícias dele. Só uma vez soube que se casara com uma rica moça da Bahia. Naquela semana, recebeu dele um e-mail contando o prematuro fim de seu casamento. Dizia também estar com muita saudade de Joana, que nunca a esquecera, e que agora vivia à moda de lobo solitário, sem amores, sem amigos, mas com uma enorme vontade de revê-la.
Da primeira vez que Joana leu o e-mail não entendeu. Até se assustou. Depois de muitas releituras compreendeu: estava para retornar à sua vida o seu mais importante caso sentimental. Quem sabe agora ele viria sedente de companhia e de amor, passando uma esponja sobre o passado, sem querer falar ou saber, sem querer ouvir, apenas viver uma vida nova. Para Joana a ilusão nasceu com a chegada daquele e-mail. Voltou a recitar poemas, a sonhar com todos os beijos e com o verdadeiro amor que ainda não provara.
Joana passou a não mais reclamar da vida, pois a vida para ela agora era só promessa.
Correu para o armário escuro e simples, e entre seus vestidos, que não eram muitos, começou a escolher aquele que a faria mais atraente. Nenhum passou pelo teste, não eram suficientemente bonitos para aquele reencontro. E fazendo então umas contas de cabeça, calculou que vendendo isso ou aquilo, daria para comprar um vestido novo. Afinal, tudo valia a pena para enfeitar um corpo e uma alma latentes de desejo.
Combinaram de se encontrar em uma livraria-café, às sete horas, no momento dos sonetos. Joana comprou um livro de poesias de Fernando Pessoa, escreveu nele uma tímida dedicatória e o guardou dentro da bolsa. Um presente que valeria como uma declaração de amor.
Finalmente o tal esperado encontro aconteceu. Ele chegou aparentando mais velho e cansado, abraçou Joana distraidamente, sem ao menos lhe reparar a primorosa produção, e depois de soltar um prolongado suspiro desabafou todo o seu desespero. Contou estar arrasado com o término do seu casamento, que ainda amava desesperadamente a ex-esposa e o pior, que ela o havia abandonado totalmente arruinado, ou seja, sem amor, sem esperanças e sem dinheiro.
Aquela inesperada e honesta confissão, feita como e por um amigo, martelava a cabeça de Joana, num impulso que era ao mesmo tempo de solidariedade e decepção. Vontade de abraçar e vontade de ajudar – como se fosse possível ajudar – apagando-se, deixando de discernir, impedindo que as próprias lágrimas acontecessem. Como consolar e dizer belas palavras a um homem que, feito um canibal, comera seu coração junto com todas suas ilusões de amor?
No entanto, cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado. Joana escutou, embora com muita dor, passivamente até o fim, as lamentações do novo amigo. Quando o táxi partiu e a cidade começou a correr dos dois lados do vidro, ela percebeu que pouca coisa mudara, ou quase nada mudara. Lembrou-se do livro de poesias de Fernando Pessoa que ficara em sua bolsa e citou: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.



Maria Lúcia de Almeida

sábado, 17 de janeiro de 2009

Como nuvens






As nuvens me ensinaram minha primeira lição de filosofia.
Elas me ensinaram a filosofia de Heráclito: "tudo flui, nada permanece".

Rubem Alves