segunda-feira, 8 de junho de 2009

Trégua


Leve como uma flor, fácil
Sem se assustar:
Estica, estica bem o corpo
E recebe o impacto.

Demais vozes...as demais
Baque quase irreconhecível
Cutuca...
Na veia, a vida pura.

Não há mais espaço
Está por demais acomodada
E sabe, não adianta
Então, não adianta falar.

Presa em mar de significados
Sem meias desculpas
Conseqüente...
Arranca das tripas, coração.

De repente seu fruto, mais doce
Movimento real, lucidez
Frente ao horizonte
Grita ainda viva, a flor.

Apalpa o vácuo
Mistura-se ao espaço
Intensifica...
Que seja ela própria, silêncio.


Maria Lucia de Almeida

domingo, 31 de maio de 2009

Sonho de uma noite


Hoje
Tive um sonho
De tantos outros
O mais desejado.
Caminhávamos pela noite
Na companhia do luar. 
Em confidências você chorou
Pediu carinho, pediu minha ajuda
E eu, em segredo
- bem baixinho -
Jurei pra sempre lhe amar.

Maria Lucia de Almeida

domingo, 10 de maio de 2009

Pequena confissão




Tu fostes no meu sonho
Um sonho muito lindo
Um céu inspirado
De muitas poesias
Gotas de sereno
Que minha alma refrescou
Nuvem que passou
E deixou rastros de saudade
Folha de outono
Que o vento carregou
Perfume de muitas lembranças
Motivo do meu mais belo
Enredo de amor.

Maria Lucia de Almeida

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Acredito


Acredito no escritor
Que compõe um mundo sonhado
Entrelaçado ao que percebe
Do universo ao seu redor.

Uma figura de linguagem
- O que será que o poeta quis dizer -
Que possui o poder de tanto encantar ?

Uma mensagem enigmática
E ao mesmo tempo tão bela,
Quanto a água que da fonte
Flui feito linguagem.

Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Blade Runner


"Entramos no cinema e descobrimos, numa cidade do futuro - não tão distante - uma experimentação de montagem de um novo território do desejo. É Riddley Scott que nos introduz a esse mundo, em seu filme Blade Runner. Nele somos apresentados aos "replicantes": robôs programados para colonizar o espaço. Perfeitas réplicas do homem, eles só não estão equipados para produzir réplicas emocionais ( isso só atrapalharia sua livre circulação pelos planetas, indispensável ao cumprimento de sua tarefa). São réplicas sim - mas das máquinas celibatárias, em seu máximo aperfeiçoamento.
Mas isso não é assim tão tranquilo para eles: quando está por expirar seu prazo de existência, rebelam-se. Replicam. No começo do filme, eles acabam de voltar à Terra justamente para subverter esse seu destino. Querem desertar sua condição de desalmados: já pressentem essas faixas de frequência para as quais o homem, seu criador, negou-se deliberadamente a equipá-los. Atacam a empresa de seu criador: querem viver. Mas a vida já não pode ser para eles - seu destino é fatal. Sua revolta só vingará se contaminar os homens.
Ficamos na esperança - talvez ingênua - de que os replicantes inventarão outra espécie de amor. Ficamos sonhando com a possibilidade de... uma outra cena? um outro mito? Um amor não tão demasiadamente humano. Montagens desintoxicadas do vício de redução do desejo de mundo a um objeto-pessoa ou uma pessoa-objeto. Ficamos imaginando um além do homem (humano e/ou desumano), onde campos de intimidade se instaurem. Uma certa inocência... Um além do espelho, onde o outro não seja mais aquilo que delineia nosso contorno. Uma nova viagem, uma viagem solitária: uma solidão povoada pelos encontros com o irredutívelmente outro.
Mas como seria essa viagem? Quase replicantes que somos, já sabemos também de que é feito esse empenho. Faz muito tempo que fomos contaminados pelo segredo de Roy, replicante chefe.
O empenho é pelo amor. O empenho é feito de amor. Mas, por enquanto, pouco ou nada sabemos acerca dessa espécie de amor. Afinal, esse é apenas o primeiro encontro entre um homem-quase-replicante e uma replicante-quase humana."
Texto da escritora
Suely Rolnik

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Vida e Morte

No sabor das recordações
Vida e Morte
- em retrospectiva -
Fazem o jogo de tudo ou nada.
Companheiras de solidão
Procuram por seus fantasmas
Disputando na surdina
Os lances limítrofes da existência.
Como numa moeda
- verso e reverso -
São parceiras inseparáveis
Porém coladas que são,
Se uma põe, a outra dispõe.

Maria Lúcia de Almeida

terça-feira, 7 de abril de 2009

Vestígios


Desce o poente
Na tarde vazia
Vão prateado
Da noite sem cor.

Em nuvens pesadas
E na penumbra sombria
Fácil é sentir-se perdido e só.

Por uma vida tola em que se omite
Por sonhos sempre desfeitos
Por quem chora ou já chorou.

Tudo o que hoje é presente
Se transformará em lembrança
Em versos simples...
Nos vestígios de um poeta.

Maria Lucia de Almeida