Sua lembrança entra com o vento frio pela janela e vai me doendo toda.
É sempre assim quando inverna e você vem.
Lembra daquilo? Nosso amor feito de todas as paixões, de todos silêncios, de todos os sons?
Lembra? Lembra de mim?
Éramos nós dois ardendo no fogo do inverno.
Noite amanhecendo, o dia anoitecendo, a gente se invernando um no outro, se embolando, eu por cima, eu por baixo, eu de lado, do outro lado, tão misturados que eu nem sei onde eu começo, nem onde você acaba...
Ah, eu sei. Você acabava em mim...ai, em mim.
Ai de mim que a essa altura da vida dei para filosofar em vez de rezar, cuidar da família, levar a vida certa.
Custosa de entender, fui entender que tem gente que sofre de lembrança, pensando que sofre de saudade. Saudade a gente tem é do que não aconteceu.
No carnaval de 1986, Tia Ruth- que Deus a tenha - afirmava em tom solene: " carnaval bom é no Rio de Janeiro. Estive lá em 1915." Coitadinha da tia Ruth, sofria de lembrança antiga.
Coitada de mim, tão nova ainda que estou morrendo de lembrança. Deslembrança. Com saudade de você amanhã, no mês que vem, no próximo natal, naquela viagem do outro ano que a gente combinou. Porque a gente combinava e tanto. E tanto a gente pecava enroscados naquele inverno: "fala que você é só minha, fala, fala de quem você é, sou só sua, sou toda sua, de mais ninguém."
Ai a andorinha cantou lá fora, "passei a vida atoa, atoa"...e a gente nem ouviu.
Tem gente que vai custar a entender que a saudade alucina mais que a lembrança, porque lembrança a gente guarda e saudade é só perda.
Você me faz falta. Por isso, andorinha, minha cantiga é mais triste, passei a vida á toa ... á toa.
Ainda está para existir alguém que consiga inventar um modo de guardar o que não teve tempo para existir e se perdeu, a gente sentindo tanta precisão daquilo. Isso é que é saudade pura.
Mulher séria, temente a Deus, não fica se perdendo nessas lembranças do mal proceder. invocando, inebriada, invernos indecentes, inesquecíveis. Nem tanta carência de você.
Ó amor, todas as minhas lembranças são suas, meu amor, feitas de todos os amores.
No mais está fazendo frio e eu doida varrida, sozinha sem você, estou sofrendo baby baby.
Nunca mais acorrentada no seu calcanhar, desde quando outro anjo maldito disse amém. Sem mais nem menos. No mais, sem mais, não mais.
Maria Lúcia de Almeida
Nenhum comentário:
Postar um comentário