segunda-feira, 25 de maio de 2026

Tentativas para ausência de chão





Passei anos tentando alcançar alguém que talvez nunca tenha existido completamente.
Uma imagem de mim mesma construída entre expectativas, silêncios e pequenas renúncias diárias. A cada escolha feita para sobreviver, 
deixei para trás fragmentos do que eu era. Não percebi quando meus próprios passos começaram 
a me estranhar.
Houve um tempo em que pensei que ser forte significava suportar tudo sem questionar. Engolir
a tristeza, adaptar a alma, diminuir os desejos, caber. Mas ninguém atravessa a própria vida sem pagar um preço. E o meu preço foi assistir, lentamente, ao desaparecimento da mulher que 
eu queria ser.
Hoje carrego um cansaço difícil de explicar. 
Não é apenas do corpo. É um cansaço da esperança interrompida, das tentativas repetidas, das versões de mim que morreram em silêncio enquanto eu fingia continuar inteira. Há dias em que olho para dentro e encontro apenas folhas secas atravessando corredores vazios.
Lutei contra mim mesma tantas vezes que já não sei distinguir derrota de sobrevivência. Talvez eu tenha perdido batalhas importantes no instante em que abandonei meus próprios ritos para atender o mundo. Talvez eu nunca tenha aprendido a permanecer ao meu lado.
E ainda assim… respiro.
Mesmo triste.
Mesmo incompleta.
Mesmo cansada de carregar ausências.
Existe algo profundamente humano em continuar respirando quando tudo dentro de nós pede repouso. Não um repouso de morte, mas de rendição. Como quem finalmente solta aquilo que nunca conseguiu salvar.
Talvez a vida não tenha vindo para me transformar naquilo que sonhei. Talvez tenha vindo apenas para me ensinar a atravessar o vento sem desaparecer completamente.
Então que assim seja.
Que eu não precise mais vencer todas as dores.
Que eu não precise mais explicar todos os silêncios.
Que eu possa apenas existir, ainda que em ruínas às vezes.
E respirar.
Porque hoje, respirar já é coragem.

Maria Lucia de Almeida 

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