segunda-feira, 25 de maio de 2026

Entre Dois Mundos




Era uma tarde de abril e de céu muito azul, dessas que parecem suspender o tempo na minha cidade. Entrei na livraria quase sem intenção, como quem busca apenas um intervalo, e me sentei no café com um livro que não cheguei a abrir.
Havia um silêncio confortável ali, atravessado pelo som baixo das xícaras e pelo virar de páginas ao redor. Tudo parecia em ordem : externo, visível, intacto. Foi quando ela surgiu.
Pequena, quase invisível no movimento dos adultos, aproximou-se com uma naturalidade que não pedia licença:
— Compra bala na minha mão, moça?
Havia algo no modo como ela dizia , não era urgência, nem insistência. Era presença. Como se aquele gesto simples carregasse um mundo inteiro que não se explicava.
Por um instante, tudo se deslocou.
Não era mais sobre balas, nem sobre compra. 
Era sobre o encontro - breve, exato - entre dois mundos que, por um segundo, deixaram de ser separados.
Olhei para ela, e havia ali uma espécie de inteireza difícil de nomear. Algo que não pedia, não faltava, apenas era.
E quando ela se foi, levando consigo o pequeno gesto, ficou um silêncio diferente. Mais fundo. Como se algo em mim tivesse sido tocado sem aviso e, de algum modo, reorganizado.
Saí dali com a sensação de que a vida, às vezes, se revela assim: em instantes mínimos, quase invisíveis, mas que, uma vez atravessados, já não nos devolvem ao mesmo lugar.

Maria Lucia de Almeida

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