segunda-feira, 25 de maio de 2026

Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite.



 
Em  "Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite" a narradora é  uma mulher chamada Alma que parece caminhar pela vida como quem recolhe cacos no escuro. Ela atravessa a vida entre afetos tortos,  silêncios,  lembranças e pequenas ruínas do cotidiano. Nada explode de verdade, mas tudo vai rachando devagar. 
Os " minúsculos assassinatos " não  são  crimes com sangue. São  pequenas mortes que acontecem todos os dias: uma palavra que fere, um amor que esfria, um sonho abandonado, a infância ficando longe, a solidão ocupando espaço sem pedir licença. São  os instantes quase invisíveis em que alguma coisa dentro da gente deixa de existir. 
E  ainda assim o livro nao é  desesperado. Os "copos de leite" aparecem como uma tentativa de ternura, de sobrevivência, de continuar viva apesar dessas perdas pequenas e constantes, como quem ainda procura algum conforto simples, enquanto  o mundo, discretamente, nos desmonta. 
A narrativa vai costurando memórias,  encontros e ausências.  Há  pessoas que passam por ela deixando marcas mínimas,  mas profundas - relações  que prometem abrigo e acabam virando distância - e os "minúsculos assassinatos" acontecem justamente aí: na delicadeza brutal da rotina. Morre um pouco da personagem, quando ela aceita menos do que merece, quando percebe que certos afetos não  voltam, quando entende que crescer também  significa perder versões  de si mesma. Então os  'copos de leite' funcionam como rituais de sobrevivência; o leite aquece, alimenta, lembra infância, proteção. Em meio às  perdas miúdas,  o leite quente à noite, vira um gesto silencioso  de resistência.
O mais bonito no livro da Fal de Azevedo é  que ela transforma o banal em poesia. Faz a gente perceber que a vida raramente se parte de uma vez, mas através de pequenas mortes emocionais que ninguém  enterra, e por isso continuam existindo dentro da memória,  e nos transformam, como as coisas que deixamos de dizer, de pedir, de viver. 
O livro tem o talento raro de fazer o leitor reconhecer partes de si em frases aparentemente simples. É  daqueles livros que continuam ecoando depois da última página, que  ficam morando devagar dentro da gente e parecem conversar baixinho com a gente na cozinha, de madrugada. Terminamos a leitura com a sensação de ter conversado com alguém  muito íntimo,  mesmo sem saber exatamente quem.

Maria Lucia de Almeida 

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