segunda-feira, 25 de maio de 2026

O que me olha




Sempre que ia para o trabalho, costumava sentar junto à janela e observar a cidade passar como um filme que não me dizia respeito.
Pessoas subiam, desciam, falavam ao telefone, carregavam suas urgências, e eu permanecia ali, como se estivesse levemente fora do tempo.
Foi então que percebi o vidro. Não a paisagem além dele, mas o reflexo. Por um instante, não soube dizer se olhava para fora ou para mim.
As imagens se sobrepunham : rostos, prédios, céu, movimento… E havia sempre alguém me olhando:
A  velhinha tristemente maquiada.
O  garoto que chorava ao pedir esmola.
O olhar pesado do vendedor ambulante que carregava mais do aquilo que oferecia.
A desolação dos desempregados nos bancos da praça. 
O desespero no homem que pedia o empréstimo da ' hora da fome'.
Foi então que algo em mim começou a desacelerar. Atravessei todos aqueles rostos - e havia uma densidade no ar, não apenas de movimento, 
mas de vidas que se tocavam sem se encontrar.
Em meio a tudo, um lamento quase silencioso atravessava o espaço. Não vinha de um só lugar, mas parecia espalhado, como uma pergunta antiga que ainda não encontrou resposta.
Continuei olhando pela janela do ônibus, mas já não era o mesmo olhar. Porque, por um instante, a cidade deixou de ser cenário. Tornou-se presença.
E algo nela, difuso, fragmentado, profundamente humano - encontrou em mim um lugar de reconhecimento.

Maria Lúcia de Almeida 

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