domingo, 5 de julho de 2009

Ultimo Adeus




Ninguém soube jamais se foi por saudade ou apenas solidão que fez com que ela voltasse àquela casa. O fato é que depois da separação, o inquieto coração começou a vacilar entre recordações de felicidade e tristeza. E foi pelos mandos do coração que, ao invés de seguir caminho reto, parou diante da casa vazia. Queria ver de perto como é que se portam as coisas sem os seus donos, ou quem sabe encontrar algum sinal das presenças que dali se foram. Seguindo o eco das vozes ressoando como dantes, iniciou sua trajetória pela porta dos fundos e chegou ao quintal. A goiabeira e o limoeiro ainda brilhavam na calmaria de um por do sol, mesmo sem os olhares que antes lhes davam vida. Os frutos que eventualmente caiam com alarde, naquele instante desprendiam-se com certa elegância numa solene despedida. Os pássaros, barulhentos ao se aninharem, fizeram silêncio para não incomodar especial momento de recordações. E ela, envolta na memória e nas lembranças que o tempo embalou, ainda podia ver e ouvir o cachorro latindo e fazendo festa.
Depois, feito sonâmbula, percorreu salas e quartos, selando os espaços, confundindo ausências e saudades. Buscando preencher lacunas, banalidades do cotidiano que fotografias não captam, algo que aparentemente não teve importância, mas que deixou rastros pelo ar. Um além do espelho onde a intimidade, feito dona da casa, instalou. Um restrito mundo de palavras ditas, de sonhos misturados, de sentimentos falsos e demais verdadeiros, de carências bem e mal resolvidas. Com inquietante indagação foi abrindo portas como quem descobre cenas, recuando o tempo, indo e voltando ao sabor de suas recordações. O coração aberto em ferida, parecia decidido morrer aos poucos com a ação de tantas lembranças.
No entanto, a casa que não é gente e nem sente emoção, continuou majestosa e clara, vazia e indiferente ao passado e aos conturbados fantasmas daquela mulher. Junto ao vento varreu para sempre palavras e sentimentos daqueles que partiram em revoada. Numa total irreverência, deu a ela a real dimensão de sua fragilidade, revelando, através de um fúnebre silêncio, que o caminho que um dia ela percorrera, ali mesmo, se esgotara. E que os ecos, imagens e lembranças não expressaram senão a ela mesma, dando vazão a seus sentimentos mais secretos de mágoa, tristeza e solidão.
Os homens com seus revezes passam e as coisas permanecem, foi essa a derradeira mensagem da casa, lembrando que da vida nada se leva. E pela porta da frente, finalmente, ela também passou, decidida a transformar todas as suas dores, prantos e saudades em motivos de canto e de poesia, pois o sabor da vida é encontrado na possibilidade de sua reinvenção.
E tudo o que era parede, muro e sigilo, tudo o que era branco e silencioso, para sempre também se calou.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Trégua


Leve como uma flor, fácil
Sem se assustar:
Estica, estica bem o corpo
E recebe o impacto.

Demais vozes...as demais
Baque quase irreconhecível
Cutuca...
Na veia, a vida pura.

Não há mais espaço
Está por demais acomodada
E sabe, não adianta
Então, não adianta falar.

Presa em mar de significados
Sem meias desculpas
Conseqüente...
Arranca das tripas, coração.

De repente seu fruto, mais doce
Movimento real, lucidez
Frente ao horizonte
Grita ainda viva, a flor.

Apalpa o vácuo
Mistura-se ao espaço
Intensifica...
Que seja ela própria, silêncio.


Maria Lucia de Almeida

domingo, 31 de maio de 2009

Sonho de uma noite


Hoje
Tive um sonho
De tantos outros
O mais desejado.
Caminhávamos pela noite
Na companhia do luar. 
Em confidências você chorou
Pediu carinho, pediu minha ajuda
E eu, em segredo
- bem baixinho -
Jurei pra sempre lhe amar.

Maria Lucia de Almeida

domingo, 10 de maio de 2009

Pequena confissão




Tu fostes no meu sonho
Um sonho muito lindo
Um céu inspirado
De muitas poesias
Gotas de sereno
Que minha alma refrescou
Nuvem que passou
E deixou rastros de saudade
Folha de outono
Que o vento carregou
Perfume de muitas lembranças
Motivo do meu mais belo
Enredo de amor.

Maria Lucia de Almeida

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Acredito


Acredito no escritor
Que compõe um mundo sonhado
Entrelaçado ao que percebe
Do universo ao seu redor.

Uma figura de linguagem
- O que será que o poeta quis dizer -
Que possui o poder de tanto encantar ?

Uma mensagem enigmática
E ao mesmo tempo tão bela,
Quanto a água que da fonte
Flui feito linguagem.

Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Blade Runner


"Entramos no cinema e descobrimos, numa cidade do futuro - não tão distante - uma experimentação de montagem de um novo território do desejo. É Riddley Scott que nos introduz a esse mundo, em seu filme Blade Runner. Nele somos apresentados aos "replicantes": robôs programados para colonizar o espaço. Perfeitas réplicas do homem, eles só não estão equipados para produzir réplicas emocionais ( isso só atrapalharia sua livre circulação pelos planetas, indispensável ao cumprimento de sua tarefa). São réplicas sim - mas das máquinas celibatárias, em seu máximo aperfeiçoamento.
Mas isso não é assim tão tranquilo para eles: quando está por expirar seu prazo de existência, rebelam-se. Replicam. No começo do filme, eles acabam de voltar à Terra justamente para subverter esse seu destino. Querem desertar sua condição de desalmados: já pressentem essas faixas de frequência para as quais o homem, seu criador, negou-se deliberadamente a equipá-los. Atacam a empresa de seu criador: querem viver. Mas a vida já não pode ser para eles - seu destino é fatal. Sua revolta só vingará se contaminar os homens.
Ficamos na esperança - talvez ingênua - de que os replicantes inventarão outra espécie de amor. Ficamos sonhando com a possibilidade de... uma outra cena? um outro mito? Um amor não tão demasiadamente humano. Montagens desintoxicadas do vício de redução do desejo de mundo a um objeto-pessoa ou uma pessoa-objeto. Ficamos imaginando um além do homem (humano e/ou desumano), onde campos de intimidade se instaurem. Uma certa inocência... Um além do espelho, onde o outro não seja mais aquilo que delineia nosso contorno. Uma nova viagem, uma viagem solitária: uma solidão povoada pelos encontros com o irredutívelmente outro.
Mas como seria essa viagem? Quase replicantes que somos, já sabemos também de que é feito esse empenho. Faz muito tempo que fomos contaminados pelo segredo de Roy, replicante chefe.
O empenho é pelo amor. O empenho é feito de amor. Mas, por enquanto, pouco ou nada sabemos acerca dessa espécie de amor. Afinal, esse é apenas o primeiro encontro entre um homem-quase-replicante e uma replicante-quase humana."
Texto da escritora
Suely Rolnik

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Vida e Morte

No sabor das recordações
Vida e Morte
- em retrospectiva -
Fazem o jogo de tudo ou nada.
Companheiras de solidão
Procuram por seus fantasmas
Disputando na surdina
Os lances limítrofes da existência.
Como numa moeda
- verso e reverso -
São parceiras inseparáveis
Porém coladas que são,
Se uma põe, a outra dispõe.

Maria Lúcia de Almeida