Escrever livremente é experimentar um momento de doçura que a gente em silêncio transforma em palavras. Momento profundamente singular e magicamente passível de concretude - expresso e desvendado - da nossa poesia oculta.
sábado, 4 de outubro de 2008
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Sem Questionamento

Não me perguntem quantos anos tenho
Não me perguntem quantos anos faço
Meus caminhos começam
além da margem de lá, depois da curva do rio
entre pedras e cachoeiras,
entre esmeraldas, futuro e taquarais.
Que não lhe impressionem a cor gasta de meus cabelos,
nem estes olhos fundos, fundos e profundos,
e a pele que em rugas guarda os segredos que vivi.
Não me perguntem quantos anos faço.
Perguntem-se que canções canto, que poemas leio,
que histórias escrevo.
Perguntem-me quem se aquece em meu braço febril,
quem se alimenta de meus beijos,
quem se apoia em minhas mãos cansadas.
Perguntem-me pelos portos que me aguardam,
pelas emoções que vivo,
pelos caminhos que surgem de meus devaneios.
Perguntem-me pelos clichês que desconstrui,
pelas transgressões que empreendi,
pelos horizontes que ultrapassei.
E quando me virem caminhando assim
entre silêncios e pensares,
olhar distante numa falsa abstração,
apontem-me como alguém que ainda ama,
sonha, luta, espera e crê.
Então, só então, digam:
ali vai uma jovem, para quem todo amanhecer
é sempre inaugural porque acredita
que enquanto houver vida,
não haverá ponto final.
Arlete Parrilha Sendra
(Membro da Academia Campista de Letras)
domingo, 22 de junho de 2008
Reverso do espelho

Pela estrada do tempo
Misturamos as horas no caminho
Túnel magico de lembranças em múltiplas formas
Minha alma se comove com as imagens
Meus sentidos se expandem com o vento
Apaziguante sensação de unicidade.
Sede de vida em cor lilás:
Todas as pessoas nascem
Todas as pessoas morrem
Todas as pessoas são viajantes
Dessa mesma estrada.
Fios de braços entrelaçados,
Formamos o todo.
As marcas permanecem através do tempo
E assistem a nossa passagem
Como um reverso do espelho.
Maria Lúcia de Almeida
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Nas tardes, sempre.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Satélite
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.
Manoel Bandeira
sexta-feira, 23 de maio de 2008
A melhor parte de mim

De tudo que sei e vejo:
Não sei!
Não sei olhar a vida e não me emocionar...
Choro pelo belo que vejo,
Choro diante da perplexidade...
Rio de mim e por mim.
Procuro incessantemente descobrir quem sou
E parecer comigo...
Choro por mim,
Rio na mesma intensidade.
Não sou alegre nem triste,
Sou.
Vasculho sótãos e porões da minha alma:
Não esqueço, aqueço.
Minhas memórias são sempre-vivas.
Sou aquela que não pensa, vive.
Vivo de amor, poesia e brisa...
Sou quem, por ora, me habita.
"Sou o que vejo!"
E como vejo coisas "demais",
procuro ver bem tudo que gosto.
Espalho o que gosto de ver por todos os lugares e cantos...
para que eu possa, sempre, me lembrar quem sou.
Esta é uma das coisas que gosto de ver bem ...
Alberto Caeiro
domingo, 2 de março de 2008
Canção Mínima ( de minha poetisa predileta)
Equilibra um planeta.
E, no planeta, um jardim
E, no fardim, um canteiro
No canteiro uma violeta
E, sobre ela, o dia inteiro
Entre o planeta e o sem-fim,
A asa de uma borboleta.
Cecília Meireles
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