sábado, 28 de novembro de 2009

Silêncio nas palavras

Se já não sabe o que quer
E se perdeu em sua 'cômoda' loucura
Não magoe o amigo só por querer.
Não diga tanta bobagem
Faça silêncio em suas palavras
E deixe o coração dizer.
Volte aos caminhos de outrora
Procure pelo ser maravilhoso
Que desapareceu...
E nem sabemos por quê.

Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pelo meio...

Escrever, ler , dizer , contar
Pra que?
Quando ainda permanece no ar
Uma única palavra  que se destaca:
Despedida.
Dói tanto, até no respirar.
Você foi embora com minhas páginas,
Rasgou e mutilou o meu romance,
Deixando-o sem final e sem começo.
E no meio da história, lá  pelo meio...
Sem resumo  e sem desfecho
- esfarelado -
Nosso triste desespero.

Maria Lúcia de Almeida

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Partidas


‘Departures’ ou ‘A Partida’ – título em português – é um filme sensível e também muito interessante por se tratar da milenar cultura japonesa em lidar com a morte. A peculiar tradição de um país que ao entrar em choques existenciais contemporâneos, leva-nos a refletir sobre uma questão que, para nós ocidentais, é por demais esmagadora: o medo da morte.
Para a maioria das pessoas, esse é um assunto empurrado para o subconsciente e negado na vida cotidiana. No entanto, o filme, com muita sutileza, nos mostra uma outra face da morte que não somente a do apego, da dor e do desespero. Enquanto o personagem Kobayashi age como guardião entre a vida e a morte, aos poucos, vai compreendendo que mesmo em tempos obscuros de pranto e de dor, a beleza pode habitar. E nos momentos que antecedem ‘a partida’, trabalha para que ninguém pense em preto, ninguém pense em luto, ninguém veja o morto como diferente, estranho ou intruso.
O morto é apenas o vivo que conclui o trabalho de viver e, com toda dignidade, é primorosamente preparado para sua nova jornada.
Uma nova jornada: é esse o sutil toque de ‘A Partida’. Assim como os filhos seguem seus caminhos quando crescem, os primeiros professores, os grandes amores e até os amigos quando escolhem rumos diferentes. O nosso grande mal é traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se a separação efetiva houvesse realmente entre vida e morte.
A vida emana da vida, o botão se transforma em flor, a criança se torna adulto...a vida não é outra coisa senão a preparação para as partidas.
E no final ficamos menos tristes, menos confusos e menos vulneráveis ao sentirmos que nada precisa morrer no instante da morte. É apenas o deixar fluir da natureza, certos de que em meio às cinzas está a semente do novo que quer nascer.
Maria Lucia de Almeida

sábado, 3 de outubro de 2009

No Invisível

Luzes brilhantes,
sombras melancólicas.
Mantos densos,
mantos leves —
mistério e paradoxo,
opostos que se mesclam
para reinventar a vida.
Sofrimento, ignorância, iluminação,
bem-aventurança —
ciclos que se atravessam
como nuvens de energia
no invisível.
Sentimentos se entrelaçam
onde não há forma,
onde tudo é essência.
E é ali,
entre o amor e o que o transforma,
que vive o próprio transformador.

Maria Lúcia de Almeida

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Vive l'amour"


‘Vive l’amour’ é um filme especial e também uma obra prima visual. Quase desprovido de diálogos e misturando contrato de sagacidade, estranho erotismo e profunda tristeza, é um filme realista e, ao mesmo tempo, poético e sensível. Um filme para poucos, pois está muito além do mero entretenimento e acima da superficialidade do cotidiano jornalístico.
No enredo, Hsiao é um tímido vendedor de urnas funerárias, possui tendências suicidas e, como forma de redenção, busca coragem para por fim à própria vida. Mei-mei é uma corretora de imóveis que encontra no sexo uma forma de compensar seu intenso sentimento de abandono e infelicidade. Ah-rong vende roupas usadas e se ‘vira’, pelas ruas, para sobreviver. Três jovens solitários e fechados em seus próprios desesperos que acabam se encontrando em um apartamento vazio da cidade em busca da satisfação nos atos compartilhados. Vidas tristes e trocadas, caminhos densos, onde o viver ‘cada um por si’ e a incomunicabilidade são condições do mundo atual e a principal causa do sentimento de abandono e exclusão.
É o cinema contemporâneo que vem tratando da solidão urbana, da falta de amor e de comunicação entre as pessoas. De um mundo onde o materialismo e a alienação urbana ganham espaço e imperam sobre a civilidade e a razão da grande parte das sociedades. Onde o capitalismo com seu efeito globalizar produz uma realidade fria que não mais reflete o interior das pessoas, mas apenas o exterior. Vida de desencontros, vida de excluídos, sofrimento sem nenhum atenuante.
Geralmente , ouvimos, vemos e sentimos conforme nossas inclinações e evitamos, até mesmo excluindo, pessoas com a sensibilidade para enxergar determinadas facetas de nossa realidade. Uma dessas pessoas é o diretor Tsai Ming-Liang que através de seu excepcional “Vive l’amour” veio nos confirmar que muitas vezes mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos.
Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Divino espetáculo


Por que será que precisamos de tantos significados, explicações, rótulos, conclusões e detalhamentos?
Qual a necessidade de estarmos sempre nos explicando, batizando todas as coisas, concluindo se é assim ou assado? Criamos atalhos e justificativas, buscamos lógica e razão — queremos segurar o mundo através de nossas cabeças, acumulando informações e conceitos.
Entender, em certo sentido, é também fragmentar, dividir, analisar. Em nossa ansiedade por entendimento, acabamos por reduzir a vida a dimensões já conhecidas, para em seguida cairmos no tédio e no desinteresse.
Quando crianças, o mundo é sempre mágico e somos pura expressividade. À medida que amadurecemos e aprendemos que a vida é assunto muito sério, esquecemos de brincar, de sentir, de simplesmente nos emocionar.
Tudo isso me ocorre a propósito de uma viagem de férias que fiz a um lugar paradisíaco chamado Dunas de Itaúnas.
Um pequeno vilarejo ao norte do Espírito Santo que, nos anos 50, devido ao lençol arenoso soprado pelos ventos nordeste, foi totalmente soterrado. A vila, como que brotando das cinzas, renasceu nos anos 70 ao lado do rio Itaúnas. Do outro lado, próximo ao mar de um azul profundo, erguem-se dunas de até 30 metros, de areia dourada e finíssima, onde o sol celebra sua existência derramando seus raios.
Do alto das dunas, é possível ver a praia de um lado e o rio do outro. O lugar atrai turistas de todos os cantos do mundo que, ao chegarem, ficam fascinados pela manifestação do sol na hora do crepúsculo. Nesse instante, por alguns minutos, o céu se cobre de luzes multicoloridas, formando um gigantesco arco-íris. E a vila, como que refletindo essas cores, nos dá a impressão do mais belo paraíso já retratado numa tela de Claude Monet.
Foi durante esse espetáculo — raro momento em que me permiti ir além dos limites do conhecido, em busca dos mistérios do sagrado —, com a alma embriagada por tanta beleza, acreditando que nada existe que não tenha antes sido inventado pela natureza, que escutei, por acaso, a expressão de um pequeno coadjuvante da mãe-natureza.
Uma criança, no colo de sua mãe, que naquele instante tornou-se símbolo do reencontro com a minha própria emoção, ao exclamar:
— Que lindo, mamãe! Quem pintou?

Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Numa só janela

Se tudo acontece
Numa só janela
Abra a cortina
Deixa o sol entrar.
Mas se faz
Vento com chuva
Não feche a janela
Nem se tranque.
Que o cheiro da chuva
Traga lembranças
Que o vento
Sopre esperanças
Que bem nos disse Cecília:
O bom da vida
É o reinventar.

Maria Lucia de Almeida