domingo, 16 de setembro de 2007

Propósito





Sinto vontade de mudar
Meu caminho
Minha rota
Meu rumo
Minha prosa
Outro mundo.
Cansei da mesmice
Da loucura dos amigos
Da chatice do dia a dia
Da minha falta de prumo.
Cansei, principalmente,
Do vazio nos meus sonhos.
Quero mudar
Vou mudar
É preciso renovar

Maria Lúcia de Almeida

sábado, 11 de agosto de 2007

Feito sonho...




Antes que eu pudesse me dar conta
O anjo adentrou a sala
Esvoaçando suas asas
E perguntou-me
Num sorriso divertido
De quem já sabe a resposta:
-Você está esperando?

Foi quando percebi
Que não estava apenas
Deixando-me ficar
E cansada de repisar
Palavras e idéias
Respondi:
-Sim, estou esperando.

Então, levou-me consigo.

Ao acordar pela manhã
Na bagunça do meu quarto
Entre cacos da velhíssima história
E sentimentos carcomidos
De todo dia
Senti ainda presentes
Ressoando em meus sentidos
Os acontecimentos daquela
Incrível noite de sonhos.

E num vislumbre
Por entre as frestas da cortina do dia
Algo novo se insinuava
De um angelical brilho
- teu sorriso -
Enquanto sussurrava em meus ouvidos:
- Estou contigo.

Maria Lúcia de Almeida

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Paradoxo



Para escrever um poema
É preciso estar enamorada.
Para estar enamorada
É preciso perder você.
Mas se é para perder você,
Como posso estar enamorada?
Paradoxo de minha vida
Que nem um poema me permite escrever
Sem correr o risco
De nunca mais rever você.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Saudade de você


Falar sobre a saudade, esse misterioso sentimento que jamais saberemos ao certo definir.
É um lembrar de algum tempo gostoso que não se acomoda mais à pele nova, só na pele antiga, mas que toda vez que nos invade vem com cheiro e jeito de aconchego. É lembrar dos dias em que o trabalho não rendia e as horas custavam a passar.
Mas no final do dia, então sim, era desligar o computador, correr para retocar a maquiagem e renovar o perfume. As colegas de trabalho diziam com certo ar de inveja e deboche: “Aí, hein, hoje tem!”. E eu nem punha reparo. Era só expectativa e felicidade ao atravessar a praça em passos rápidos e esperar no lugar e hora combinados.
Chegava sempre pontual, aquele senhor cheiroso. Cheirava, principalmente, à fruta madura, talvez às maças no momento em que são colhidas. E sereno...de uma naturalidade pura, ainda intocada pela pressa dos que estão apaixonados.
Trazíamos no coração um só desejo: chegar depressa ao bar da rua Aimorés para compartilharmos de deliciosas horas da mais terna amizade, com muita prosa recheada de afinidade e encantamento.
Se por algum momento existiu a intenção do amor, ficou assim, para sempre subtendida.
Hoje penso que nunca nos importou um nome real para aqueles nossos encontros. Tão particularmente nossos, que jamais vamos precisar definir através de um nome.
Pois é...saudade tem que ser isso. Algo quente, algo antigo, algo que faz rir, algo que faz chorar, algo que vale ouro...Assim como você, meu querido e inesquecível amigo.

Maria Lúcia de Almeida

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O dom de iludir


Quando assistimos à um espetáculo de magia, ficamos encantados quando o mágico vai transformando lenços em aves que voam da cartola ou quando tira moedas por detrás das orelhas das crianças. Aplaudimos o mágico pela ilusão que ele cria. Nesse processo, vemos emergir um paradoxo: a ilusão só é verdadeira porque é produto de um truque que não percebemos. A gente sabe que é um truque, mas as mãos são mais rápidas que os olhos. Assim, enquanto olhamos as mãos, vemos subtrair-se o gesto que determina o exato momento em que a carta escorregou da manga para o jogo do ilusionista.
Mecanismo semelhante acontece com a verdadeira arte de viver, de nós, seres humanos. São vidas falsas que imitam as verdadeiras que se parecem com as falsas de maneira a ir contaminando as certezas e semeando as dúvidas. Nomes, frases, gestos e ações vão se misturando, se enraizando, criando hábitos verdadeiros misturados a falsos motivos que bordam aparências e atitudes. Na adversidade dos critérios individuais, o que pode ser perfeitamente lícito, para outros podem ser irregulares e até inadmissíveis. As variações no tempo e no espaço passa a ser um jogo de ilusões, já que a verdade de hoje costuma não ser a de ontem, e o que algumas áreas aceitam, outras por vezes repelem. Muito próximo das diversidades mais comuns está a freqüente tendência para colocar a questão do certo ou errado em termos de nós e os outros, ou seja, muito do que fazemos e consideramos certo passa a ser errado quando feito por outros e muitas vezes dito da maneira mais crua:"Faça o que eu digo e não o que eu faço."
Levamos muito à sério a advertência de que só os tolos são coerentes, pois quase todos nós mudamos com relativa freqüência de conceitos, atitudes e posições numa total falta ou escassez de coerência.E nesse processo de "mudanças" vamos tecendo, como a velha senhora o tricô, no repetitivo movimento das agulhas que vão enredando os fios, indo e voltando enquanto a "malha" da vida vai sendo desenvolvida. A feição "dos atos e fatos" vai se compondo aos poucos: um ponto, um artifício, uma laçada, dois juntos e, no arremate final , as agulhas voltam para o estojo, enquanto a "malha" está pronta para ser vestida. Resta saber em quem servirá a carapuça.
"La donna é mobile" canta a ópera. Mas não é só as mulheres, os homens também; ambos os sexos são capazes de grandes e numerosas mudanças, tanto de grandeza como de baixeza, em inúmeras gradações. Na música "Dom de iludir" de autoria de Caetano Veloso, é a mulher que diz ao homem: "...você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?".A racionalidade também entra em jogo. Existe uma grande dose de violência oculta naquilo que chamamos de racionalidade: algumas vezes é preciso ser brando, outras duro; e nesse particular La Rochefoucauld nos adverte de que "ninguém deve ser elogiado pela sua bondade quando não se tem força para ser mau."Na construção dos equívocos , são muitos os deslocamentos. Pessoas, episódios, objetos são quase reais, os fatos nos parecem concretos, o jogo faz de conta que é fingido como se fosse verdadeiro, e, no final, a vara de condão vira chicotinho queimado. Assim, por mais atentos ao que chamamos "realidade", o mais importante é justamente aquilo que nos escapa e ao mesmo tempo nos atinge: o efeito de ilusão.
Quem já construiu castelos no ar sabe que não é preciso apagar a luz. A gente pode fechar os olhos e ver melhor as paisagens "sonhadas" e objetos desejados. Quem já viu uma pessoa visitando esses castelos sabe que não é preciso fechar os olhos para abrir as pálpebras dos olhos interiores e observar o outro lado, a outra faceta da realidade que uma nova percepção descortina. Para perceber o movimento do jogo e identificar o objeto de interesse, é necessário que a gente esteja distraído, certos da impossibilidade de saber a verdadeira verdade. Cada olhar que damos pela janela colocamos a semente da vida no estado de criação.
Se pararmos para observar uma borboleta, depois de algum tempo, poderemos nos fazer a pergunta: "Sou eu que observo a borboleta ou será a borboleta que me observa?". "Apenas na separação percebida pela mente é que há uma diferença", diz o cientista, ou, de acordo com Guimarães Rosa: "...se não fosse a borboleta, a lagarta teria razão".
Maria Lúcia de Almeida

domingo, 29 de julho de 2007

Nonada




"Como não se viu, aqui se vê.
Porque, no Gerais, a mesma raça de borboletas,
que em outras partes é trivial regular - cá cresce,
vira muito maior, e com mais brilho,
se sabe; acho que é do seco do ar, do limpo,
desta luz enorme."

"Pode-se lá, porém, permitir que a palavra nasça do amor da gente,
assim, de broto e jorro: aí a fonte, o miriquilho, o olho-d'água;
ou como uma borboleta sai do bolso da paisagem?"

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas.

sábado, 28 de julho de 2007

Resgate



De um passado
Seus traços
Em leves sopros
Mornos de bem querer
Se recordo
- me aqueço -
Se desperto
- me acendo -
Resgato você!

Maria Lucia de Almeida