segunda-feira, 9 de julho de 2007

Os que passam despercebidos

 


Há pessoas que atravessam a nossa vida sem alarde, sem deixar pegadas visíveis. Só muito tempo depois descobrimos que, enquanto todos olhavam para o espetáculo do mundo, eram elas que carregavam a verdadeira beleza.

Lembro-me de uma tarde de verão. Dessas tardes em que o calor parece adormecer a cidade e convencer o tempo a caminhar mais devagar. 

Um rastro de nuvens atravessava o céu. À porta de um café, uma flauta desenhava uma melodia tão delicada que parecia conversar com o vento. Refugiei-me à sombra de um ipê florido. Naquele instante, eu não olhava para nada em particular, mas via tudo.

Foi então que ele apareceu.

Veio andando devagar, como quem aprendera a não disputar espaço com a pressa dos outros. Vestia roupas simples, trazia um caderno gasto debaixo do braço e um olhar sereno, desses que parecem ter feito as pazes com a vida.

Contou-me que fora seminarista. Procurara Deus entre paredes, mas acabara encontrando-O nas estradas. Desde então, caminhava de cidade em cidade oferecendo ajuda, amizade e poemas. Quando a fome apertava, trocava versos por um prato de comida.

Nunca soube se era um andarilho que escrevia poesia ou um poeta que escolhera caminhar. Escrevia com uma delicadeza quase desarmante. Havia nele uma inocência que sobrevivera às dores e às desilusões, como se a vida, apesar de tudo, não tivesse conseguido desalojar a beleza do seu coração.

A tarde parecia convencida de que nada poderia romper sua serenidade.

Enganava-se.

Alguns metros adiante, uma discussão começou. Primeiro, vozes alteradas. Depois, empurrões. Então, um estampido seco atravessou o ar.

Por um instante, até a melodia da flauta pareceu emudecer.

Só me lembro de vê-lo lançar o próprio corpo sobre uma jovem que estava na trajetória do disparo.

Quando o silêncio voltou, era o corpo dele que protegia o dela.

Instalou-se o tumulto. Gritos. Pessoas correndo. Acusações nascendo antes mesmo da verdade.

Então uma voz, áspera como se viesse do fundo do inferno, gritou:

— Aquele rapaz... o andarilho que espalha poesia! Foi ele quem começou tudo! Levem-no para a delegacia!

Procurei desesperadamente pelo poeta. Queria dizer o que meus olhos tinham visto.

Mas ele já havia desaparecido.

Desde aquele dia, quando ouço alguém dizer que o mundo está perdido, lembro-me daquele homem.

Não sei para onde foi o poeta andarilho. Talvez ainda caminhe pelas estradas, trocando poemas por um pedaço de pão. Talvez tenha encontrado algum lugar onde reconheçam a bondade antes de julgá-la.

Só sei que as pessoas mais extraordinárias que conheci jamais fizeram questão de parecer extraordinárias. Passam despercebidas.

Como a música de uma flauta numa tarde de verão.

Ela continua ali.

Mas só quem interrompe a própria pressa consegue escutá-la.

Maria Lúcia de Almeida 

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